Quem lida com combustíveis deve ser treinado para apagar incêndios. A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, está colocando tudo o que aprendeu nos treinamentos da Cipa à prova para conter uma queimada e tanto: o escândalo de corrupção descoberto pela Polícia Federal nas entranhas da companhia. Mas, quando o clima é desfavorável, os ventos alastram o fogo, como bem sabem os bombeiros. A Petrobras é, tradicionalmente, uma queimadora de caixa, dada a necessidade de investimentos bilionários. As contas só fecham, devido ao dinheiro que obtém no mercado, com captações e dívidas. Por isso, outra fogueira que a consome é a situação do caixa – e se ele será suficiente para mantê-la em funcionamento.

Após meses de atraso, a Petrobras divulgou, na madrugada desta quarta-feira 28, um balanço não auditado do terceiro trimestre. Traduzindo, a consultoria independente PricewaterhouseCoopers recusou-se, até aqui, a endossar os resultados. O motivo é o impacto da corrupção sobre o valor dos projetos e ativos da Petrobras. Numa avaliação preliminar, citada por Graça, foram analisados ativos que totalizavam R$ 188,4 bilhões. Destes, R$ 88,6 bilhões (ou 47% da amostra) tinham “valor justo” abaixo do apurado – ou seja, estavam super-avaliados. A Petrobras e a PwC, porém, ainda não se entenderam sobre o critério para apurar os desvios de preços e, por isso, nenhum valor foi lançado no balanço.

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Corrigir esses valores e descontar o que o esquema de corrupção investigado levou é, tecnicamente, chamado de baixa contábil. Na prática, essa correção tem pouco impacto sobre o caixa da companhia – o dinheiro que, grosso modo, está nas contas correntes da companhia e a faz funcionar no dia-a-dia, pagando investimentos, funcionários e contas. Por isso, o mais importante, para que a empresa não trave, é manter o caixa – algo que também não é fácil para a companhia.

Caixinha?

A empresa fechou setembro, segundo os dados não auditados, com um caixa de R$ 62,4 bilhões, acima dos R$ 58 bilhões que possuía em julho. Seria uma boa notícia, se esse acréscimo não fosse bancado por financiamento e captações de mercado. É verdade que o dinheiro gerado pelas atividades operacionais (produção e venda de combustíveis) cresceu bem, de R$ 14 bilhões para R$ 23 bilhões, no mesmo período. Mas é preciso lembrar que a Petrobras administra o maior plano de investimentos do País e consome muito dinheiro com isso. Entre julho e setembro, o desembolso com investimentos foi de R$ 19,3 bilhões. Sobraram, portanto, cerca de R$ 4 bilhões nos cofres da empresa.

Só que o dinheiro não sai de graça. A Petrobras tem um endividamento total de R$ 331,704 bilhões, oriundo de financiamentos em diversas moedas, como dólar, euro e iene, para bancar os investimentos. Por isso, o saldo líquido das operações de financiamento (o dinheiro que a empresa captou, menos juros, amortizações e distribuição de resultados no período) foi negativo em R$ 5,073 bilhões no trimestre. É o suficiente para consumir todos do R$ 4 bilhões que estavam no caixa, além de deixar um pequeno rombo.

No fim, o saldo de caixa foi salvo por um impacto positivo de R$ 5,093 bilhões, contabilizados como efeitos cambiais. Com o dólar em alta, ativos expostos à moeda americana foram valorizados no período. Segundo a Petrobras, em setembro, havia um equivalente a R$ 29,3 bilhões em ativos nesta situação.

Lenha na fogueira

O caixa da Petrobras continuará cercado de fogo por todos os lados, em 2015. A dívida de curto prazo, em setembro, estava em R$ 28,2 bilhões. Somente as despesas gerais e administrativas, que incluem pagamento de salários e contas básicas, como telefone, água e luz, ultrapassavam os R$ 38 bilhões no acumulado do período. Além disso, o plano de investimentos da Petrobras, embora esteja em revisão, prevê US$ 220 bilhões entre 2014 e 2018, o que dá cerca de US$ 44 bilhões por ano – ou mais de R$ 110 bilhões.

É verdade que a Petrobras contará com o reajuste dos combustíveis, determinado no fim de 2014. Outra fonte de alívio é a queda da cotação internacional do petróleo, hoje ao redor de US$ 50 por barril. Como a Petrobras precisa exportar óleo pesado e importar óleo leve – o mais adequado às nossas refinarias -, sempre ajuda. Mas a empresa também conta com um ovo dentro da galinha: o pagamento das dívidas que as termelétricas acumulam com a companhia, devido ao fornecimento de diesel para sua operação. A Petrobras espera que o governo federal, seu maior acionista, dê garantias à empresa pelas dívidas do setor. Ou seja, se as usinas não pagarem, a União paga. Isso seria necessário, para que a estatal negociasse novos empréstimos com os bancos, dando essas garantias em troca. A dívida acumulada pelas elétricas com a Petrobras era de quase R$ 9 bilhões, entre contas vencidas e a vencer. O ponto é que, em vez de pagar a dívida, o setor elétrico está acumulando vencimentos: em dezembro de 2013, a conta era de R$ 6 bilhões. Não para de chegar lenha para as fogueiras que Graça precisa apagar.