Ao contrário do que se pensa, escândalos corporativos não são jabuticabas enfiadas garganta abaixo apenas de brasileiros. Investidores de todo o mundo estão sujeitos a apostar em companhias que, em algum momento, são envolvidas em crimes ou fraudes.

No Brasil, o maior exemplo é a Petrobras, centro de um esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato, tocada pela Polícia Federal, com o apoio da Justiça. No Exterior, o caso recente mais rumoroso é o do banco HSBC, acusado de favorecer a evasão de divisas e sonegação fiscal de seus clientes, por meio de contas secretas na Suíça. O caso tornou-se conhecido como SwissLeaks (algo como “vazamento suíço”, numa tradução livre).

O impacto concreto dos escândalos sobre o valor de mercado das empresas, contudo, não é tão direto. Para entender até que ponto crises como essas podem afetar as ações, é preciso compreender como pensam investidores e analistas de mercado. 

No bolso

Para os analistas, nada incomoda mais do que uma baixa rentabilidade. O motivo é simples: investir em uma ação é semelhante a adquirir uma casa para alugar. Só é um bom negócio, se alguém encontra um imóvel por um valor justo e que possa ser alugado por um percentual interessante. Não tem sentido pagar mais do que a casa vale, nem alugá-la por menos. Além disso, se o proprietário quiser se desfazer dela no futuro, espera revendê-la com lucro. 

No fundo, o que os investidores em ações fazem é a mesma coisa. Calculam o valor justo de uma ação e quanto ela pode render em juros e dividendos e se pode subir com o tempo, para ser negociada com ganhos. Corrupção e clientes de caráter duvidoso só entram na conta, se gerarem multas, indenizações ou qualquer penalidade que pressione, na prática, o caixa da empresa. 

É a mesma coisa do imóvel: se é para alugar, o novo proprietário dificilmente se importará se o antigo dono não seguia as regras do condomínio. Só se preocupará com questões “morais” do ex-morador, se herdar multas e impostos atrasados devido ao seu mau comportamento.

Isso fica claro tanto no comportamento das ações da Petrobras, quanto nas do HSBC. Entre março do ano passado e esta quinta-feira 5, a Lava Jato passou por oito momentos decisivos. Em 17 de março, a primeira fase de investigações foi lançada pela Polícia Federal. Três dias depois, o ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, foi preso. Em 11 de abril, equipes da PF passaram o dia na sede da Petrobras, recolhendo documentos para investigar indícios de irregularidades. 

Os investidores, porém, não se abalaram. As ações preferenciais da Petrobras encerraram aquele pregão com alta de 3,25%. No fim de agosto, Costa selou um acordo de delação premiada com as autoridades. A disposição do ex-diretor de revelar o que sabe das entranhas da estatal deixou políticos e empresários à flor da pele. O mercado, novamente, passou ao largo e valorizou em 4,58% as ações, naquele dia. 

Em meados de novembro, a PF prendeu executivos de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção. Um mês depois, a Procuradoria Geral da República apresentou as primeiras denúncias criminais de envolvidos. Em 14 de janeiro, o ex-diretor da Área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, foi preso pela PF. No início de fevereiro, a investigação entrou sem sua terceira fase, batizada de “My Way” e baseada na delação premiada de Pedro Barusco, ex-gerente da companhia. A oscilação das ações da Petrobras nessas ocasiões, como se vê, foi de neutra a positiva.

No caso do HSBC, embora a ONG de jornalismo investigativo ICIJ (The International Consortium of Investigative Journalists) tenha feito as primeiras denúncias de irregularidades em 2010, o caso só ganhou notoriedade mundial no início de fevereiro. Desde então, suas ações caíram mais de 7% na Bolsa de Nova York. O cruzamento das maiores quedas com as datas das denúncias e de seus principais desdobramentos, contudo, mostra uma resposta semelhante dos investidores. É um sinal de que, tanto no Brasil, quanto no Exterior, o mercado reage de modo mais racional do que moralista.

Eleição versus corrupção

Como a Lava Jato já se alonga desde o ano passado, é preciso recuar mais para entender como ela influenciou na cotação da Petrobras. No geral, pode-se dizer, o ritmo das ações, até outubro de 2014, foi ditado pela corrida presidencial e pela maior ou menor possibilidade de a presidente Dilma Rousseff ser reeleita. Somente após a confirmação de sua vitória, no fim daquele mês, a corrupção na estatal passou a ser considerada – e, mesmo assim, quando ela atrapalhou, na prática, as contas da companhia.

O dia 20 de março simboliza bem a maior preocupação dos investidores com a sombra de Dilma e seus aliados sobre a empresa, do que com a Lava Jato. Naquela data, houve uma coincidência reveladora: a PF prendeu o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, acusado de integrar o esquema de corrupção. 

A prisão deixou políticos, empresas e o governo em alerta, já que Costa é considera um dos “homens-bombas” do caso, capaz de revelar detalhes que impliquem gente poderosa. Mas o que determinou o humor do mercado foi outro fato: a divulgação de uma das primeiras pesquisas sobre a corrida presidencial que começava. 

Publicada pelo Ibope, ela apontava Dilma Rousseff, então pré-candidata à reeleição pelo PT (sua candidatura só seria confirmada em uma convenção em julho), com 43% das intenções de voto. O senador tucano Aécio Neves surgia com 15% e o ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, com 7%. O que agradou, e muito, os investidores foi o fato de que o percentual de Dilma era menor que os 47% registrados por outro instituto dias antes, o Datafolha de 24 de fevereiro.

Esperança

O recuo foi interpretado, pelos analistas, como um sinal de que havia chances reais de troca de governo. Para eles, isso significaria um comando da Petrobras mais alinhado às suas expectativas e menos sujeito a palpites de políticos e apadrinhados. Com isso, a empresa voltaria a seguir a cotação internacional do petróleo, repassaria reajustes represados de combustíveis, optaria por projetos com viabilidade econômica e teria mais fôlego de caixa para investir e pagar dividendos.

Entre a prisão de Costa e a eventual saída de Dilma, os investidores preferiram se alegrar com a segunda notícia. O resultado foi uma alta de 4,87% no valor dos papéis da estatal naquele dia. A valorização continuou, com apenas dois pregões de queda, até 7 de abril, quando já atingia R$ 16,46 – uma alta acumulada de quase 25% em menos de um mês.

À medida que a disputa eleitoral ficava mais acirrada e as chances de reeleição de Dilma pareciam menores, as ações de estatais, incluindo as da Petrobras, disparavam. O ápice ocorreu em 2 de setembro, quando as preferenciais (PETR4, as mais negociadas) atingiram R$ 24,56 – uma alta de 3,06% sobre o dia 1º. O bom humor dos investidores tinha nome: a então candidata Marina Silva, do PSB, aparecia empatada com Dilma no primeiro turno, em pesquisa do Datafolha divulgada na noite do dia anterior. O melhor, para os analistas, porém, era a simulação de 2º turno: a ex-senadora acreana ampliava sua liderança de 47% para 50% sobre a petista.

Com a apertada vitória de Dilma, em 26 de outubro, após uma acirrada disputa no segundo turno com o tucano Aécio Neves, o humor dos investidores com a Petrobras azedou e seus papeis foram duramente castigados na segunda-feira seguinte, com um tombo de quase 13%.

Sem balanço

Somente em três ocasiões, a Lava Jato exerceu uma influência maior sobre a estatal. Em 12 de novembro, a empresa anunciou que não entregaria o balanço do terceiro trimestre até o prazo legal, devido às dificuldades para determinar em quanto seus projetos e ativos foram superfaturados para alimentar o propinoduto revelado pela PF. 

O mercado a puniu com uma queda de quase 12% em suas ações, nos quatro pregões seguintes. Um mês depois, a estatal adiou novamente a apresentação dos números, alegando os mesmos motivos. Pior, deixou de se comprometer com prazos. Em apenas dois dias, os papéis derreteram mais 13%. 

Em 27 de janeiro, pressionada por todos os lados, a então presidente da Petrobras, Graça Foster, autorizou a divulgação de números não auditados. Os resultados foram mal recebidos por dois motivos: sem a chancela de um auditor independente, não servem para nada. Além disso, a Petrobras estimava em R$ 88 bilhões o rombo causado pela corrupção, representado pelo sobrepreço de ativos e projetos. O número era muito maior que o esperado por analistas e o divulgado pelos procuradores (R$ 4 bilhões). O castigo do mercado foi claro: em apenas três dias, a perda de valor alcançou 19,6%.

Mesma onda

No caso do HSBC, a reação dos investidores foi semelhante. O ICIJ divulgou, em 8 de fevereiro, um domingo, o envolvimento da filial suíça do banco em esquemas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. Na semana seguinte, o banco acumulou um recuo de 3,5% na Bolsa de Nova York. 

Mais do que uma punição moral, os investidores preocuparam-se com um efeito prático: as possíveis multas e indenizações que o banco poderá pagar, se as denúncias forem confirmadas. As penalidades sangrariam seu caixa e, no limite, comprometeriam sua capacidade de distribuir dividendos. Entre 8 de fevereiro, quando foi denunciada pelo ICIJ, até 20 de fevereiro, a instituição recuperou-se e ainda se valorizou ligeiramente, passando de US$ 46,37 para US$ 46,68. 

Outra evidência de que, também no Exterior, o mercado coloca os ganhos acima das questões éticas, surgiu em 23 de fevereiro. Naquela manhã, o HSBC divulgou seus resultados de 2014. O lucro líquido recuou 15% sobre o ano retrasado, para US$ 13,7 bilhões. O número ficou abaixo da média esperada pelos investidores. A instituição também cortou projeções de retorno e afirmou que pode elevar suas provisões para enfrentar as possíveis conseqüências do SwissLeaks. 

Somente naquele pregão, suas ações caíram 4,3%, para US$ 44,68. Desde então, os relatórios de casas de análises estrangeiras destacam os possíveis efeitos financeiros do escândalo e pressionam o papel, que encerrou a quarta-feira 4 cotado em US$ 43,76. Acima de reparações éticas e ajustes de conduta da Petrobras e do HSBC, a moral da história é que nada incomoda mais os investidores, do que ver suas oportunidades de lucro minguarem.