Da China à Venezuela, passando pelo Iraque, os negócios da petroleira semipública russa Rosneft coincidem, em muitos casos, com os interesses geopolíticos da Rússia. Seus investimentos ampliaram a influência do Kremlin em países muitas vezes instáveis.

O grupo, dirigido pelo influente Igor Sechin, próximo de Vladimir Putin desde os anos 1990, cresceu a partir do que sobrou a Yukos, a companhia do oligarca Mikhail Khodorkovski, desmantelada por acusações de fraude fiscal com o objetivo de eliminar suas aspirações políticas.

Desde então, a Rosneft tornou-se uma gigante mundial dos hidrocarbonetos, com uma produção de gás e petróleo de mais de 5 milhões diários de barris equivalentes de petróleo e avaliação na bolsa de 50 bilhões de dólares.

Nos últimos anos, a Rosneft seguiu o mesmo caminho que o Kremlin, aproximando-se de potências ocidentais e países emergentes.

“Sechin não é só um líder econômico”, explica Nikolai Petrov, professor da Alta Escola de Economia de Moscou. Ele quer provar que “a Rosneft é importante e necessária, não só como um dos pilares da economia russa, mas também como um potente instrumento da política externa”.

Em 2006, a Rosneft foi lançada na bolsa e fechou acordos com gigantes ocidentais do setor, como a petroleira americana ExxonMobil, ou a norueguesa Statoil.

Recentemente, fechou um contrato multimilionário para vender petróleo à China, comprou a refinaria indiana Essar e incorporou a Catar ao seu capital.

A Rosneft é alvo de sanções ocidentais contra a Rússia pela crise na Ucrânia e não deixa de investir em países em crises, o que afasta investidores estrangeiros.

A empresa anunciou, nesta semana, ter pagado 1,3 bilhão de dólares de adiantamento às autoridades do Curdistão iraquiano para explorar seus imensos recursos em hidrocarbonetos.

O governo iraquiano criticou duramente esse acordo, que considera uma “ingerência flagrante” nos assuntos internos iraquianos.

O Iraque e a região autônoma do Curdistão estão em plena crise desde o referendo sobre a independência curda de 25 de setembro.

– Papel-chave na Venezuela –

“Como a Gazprom (grupo de gás russo), que exerce um papel autêntico na política exterior para Europa e China, a Rosneft é responsável por algumas orientações de política estrangeira na América Latina”, explica Petrov.

É o caso da Venezuela: a PDVSA, a petroleira estatal, deve cerca de 6 bilhões de dólares à Rosneft.

Oficialmente, essa quantidade é um adiantamento de vários contratos de entrega de petróleo e carbonetos até 2019, mas muitos especialistas apontam que, na realidade, trata-se de um apoio financeiro ao governo venezuelano. A Rússia acaba de refinanciar também um empréstimo venezuelano de 2011.

A Rosneft também assinou acordos com empresas públicas da Líbia e do Irã, em fevereiro e novembro, respectivamente, para investir ou desenvolver projetos comuns nos dois países.

Esses contratos permitem à Rússia reforçar suas relações – e sua influência – em países às vezes isolados por Washington, como na época da Guerra Fria.

Contudo, segundo Alexéi Gromov, especialista de energia do Instituto de Energia e Finanças, a Rosneft pratica sobretudo uma “política expansionista agressiva de compra de ativos, tanto na Rússia, como no exterior”.

“No mundo, é bastante difícil encontrar ativos interessantes a um preço acessível”, garante o especialista, explicando que a Rosneft foi convidada a investir no Curdistão “sob condições atraentes”.

“Não pode-se esquecer que a Rosneft está sob sanções e por isso a empresa dá atenção especial aos mercados que não as aplicam”, acrescenta.

“A Rosneft investiu na Venezuela quando o país tinha potencialmente enormes recursos petroleiros. Quem podia saber, então, que os preços despencariam em 2014 e que haveria uma crise política?”, explica.

Por ora, a Rosneft disse que não estão previstos novos empréstimos à PDVSA.