17/09/2003 - 7:00
A Philips descobriu que o futuro do seu negócio não está mais no fio da rede elétrica. A empresa holandesa, uma das maiores fabricantes de eletroeletrônicos do mundo, anunciou uma mudança brusca em sua linha de atuação e prometeu inundar o mercado com produtos que se conectam diretamente à internet em alta velocidade. É uma reviravolta no modelo de negócios da companhia. São gravadores de DVD, aparelhos de som e televisores com capacidade de carregar filmes e músicas diretamente da rede mundial sem a necessidade do computador. Para entrar com força na nova seara, a empresa passou os últimos meses em conversas com diversas operadoras de telecomunicações, como a Telecom Italia (TIM), a alemã Deutsche Telekom e a British Telecom no Reino Unido. No Brasil, iniciou negociações com operadoras nacionais, mas mantém os nomes em segredo. ?Queremos criar um novo segmento de mercado em que todos os equipamentos terão internet rápida?, diz Paulo Ferraz, vice-presidente da área de eletrônicos e consumo da Philips no Brasil.
O primeiro brinquedo tecnológico a aterrissar aqui será um
aparelho de áudio que irá se conectar à linha telefônica com um modem externo. O consumidor irá digitar o endereço de um site diretamente no equipamento. Em vez de sintonizar as estações
locais, o rádio conseguirá tocar músicas de qualquer rádio on-line do mundo. O produto em breve estará em diversas lojas nacionais que trabalham com eletroeletrônicos e aguarda apenas a liberação da alfândega. ?A vida do usuário ficará muito mais fácil quando ele
puder pegar músicas diretamente do site?, diz Eric Blosch, diretor da área de produtos técnicos da loja Fnac Brasil. Depois desse lançamento, a Philips pretende trazer uma televisão de tela plana e um gravador de DVD, ambos devidamente conectados à rede. Na tela da TV, o usuário poderá escolher o programa que quer assistir e carregá-lo diretamente de um site remoto. Com o DVD, poderá pegar uma película on-line e gravá-la em disco.
As novidades animaram operadoras de telecomunicações e lojistas. ?No futuro acredito que esses aparelhos serão uma oportunidade interessante de negócios para as operadoras que vendem o acesso?, diz Rômulo Machado, gerente de desenvolvimento de produtos da operadora GVT. ?No dia em que a TV se conectar à rede a um custo baixo, a internet ficará muito mais democrática?, diz André Isay, vice-presidente de marketing e vendas do provedor iBest, da Brasil Telecom. O obstáculo, como de costume, será o preço. Enquanto os novos aparelhos de som sairão por mais de R$ 1.200, o modelo mais barato de um concorrente custa R$ 500.
Mesmo assim, a Philips decidiu aceitar o risco. E o motivo para tamanha ousadia está na áspera realidade do setor. A empresa gasta anualmente US$ 2,5 bilhões com pesquisa e desenvolvimento mas nem sempre foi bem recompensada por isso. Após cada lançamento a empresa é obrigada a lidar com a competição de companhias asiáticas que aprenderam rapidamente a copiar as inovações dos líderes e vendê-las a custos menores. ?No cenário atual não é mais suficiente lançar novos produtos em mercados saturados?, assumiu o presidente mundial Gerard Kleisterlee, em um discurso proferido na Alemanha durante uma feira do setor no final de agosto. A saída, então, foi correr o mais rápido possível para que a concorrência demore mais para chegar. ?Temos que criar um mercado novo para podermos ser líder por mais tempo?, diz Kleisterlee.