Na pequena e fria Eidhoven, sul da Holanda, um grupo de cientistas e designers da Royal Philips Eletronics, chefiado por Stefano Marzano e Clive van Heerden, vem dedicando boa parte de seu tempo ao desenho de roupas. São blazers, jaquetas, calças, macacões, shorts e tops ? alguns bastante sensuais. Calma. A gigante do segmento eletrônico e de iluminação, com receitas globais de US$ 36,8 bilhões, não ingressou no setor de moda. As peças em questão fazem parte da linha de protótipos de um dos mais ambiciosos programas já desenvolvidos pela Philips, batizado de Wearable Eletronics Project, algo como ?Projeto de Eletrônicos para Vestir?. Da cabeça e da prancheta
da dupla Marzano-Heerden já nasceram equipamentos dignos de figurar em filmes futuristas como Matrix e Minority Report. São
coisas como o short de ginástica capaz de monitorar e dar dicas
para corrigir a performance do atleta; o handheld com celular e
tela de cristal líquido flexível costurado à manga de um blazer; o agasalho infantil com videogame acoplado à manga; e a jaqueta
jeans cujos botões permitem ao DJ fazer suas mixagens no meio
da pista de dança. O programa é uma das vedetes do departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Philips, que consome US$ 2,5 bilhões anuais. ?As primeiras peças deverão chegar ao mercado
até o final desta década?, estima Walter Duran, diretor do Labo-
ratório Philips da Amazônia.

A ?pedra de toque? dessa pesquisa, iniciada em 1997, é a conectividade. Nos protótipos já produzidos, os comandos ?play?, ?drop?, ?download? e os números de um teclado de telefone celular, por exemplo, são ?bordados? ou impressos no próprio tecido das roupas. E o que é melhor: todos os mecanismos podem ser lavados e passados normalmente. A pesquisa também tem como meta o desenvolvimento de materiais acessíveis à maioria das pessoas. ?Os produtos devem ser baratos e simples de usar como
uma boa blusa de lã?, exemplifica Duran. Alguns brasileiros privile-
giados já tiveram a chance de testar as peças. Há dois anos, a
filial recebeu protótipos que foram usados em pesquisas de
campo, em sigilo absoluto.

O Wearable Eletronics Project também está ligado à saúde e à performance esportiva. O macacão ?Techno Surfer? é um bom aliado dos esquiadores, por exemplo. A peça possui sensores que esquentam o corpo e aumentam as chances de o esportista sobreviver em caso de ficar preso sob a neve numa avalanche. Além disso, um sistema de rastreamento ajuda na sua localização. E mais: o equipamento de som acoplado ao capuz muda o ritmo musical de acordo com a ?adrenalina? sentida ao descer uma montanha. O mais recente invento na categoria Wearable ocorreu na área médica. A subsidiária da Alemanha criou um equipamento capaz de monitorar as funções vitais (batimentos cardíacos e respiração) e arquivar, por três meses, o histórico médico de uma pessoa. Em caso de enfarte, o aparelho contata automaticamente o serviço de emergência do hospital. Num setor em que todos os fabricantes têm mais ou menos o mesmo para oferecer, a Philips tenta fugir da ?comoditização? dos eletroeletrônicos de uma maneira bem original. Original como a roupa que reconhece aquele amigo que a gente não vê há muito tempo e informa o nome dele ou o piercing que monitora o nível de insulina em diabéticos. Pode?