A Polícia Federal suspeita que o ex-ministro e governador de Minas  Gerais Fernando Pimentel (PT) abriu as portas do Ministério da Saúde  para o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené, que foi  coordenador de sua campanha ao governo.

Relatório da  Operação Acrônimo, obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo, diz que Bené  usou essa influência para fraudar licitações de até R$ 200 milhões no  governo, obtendo contratos superfaturados. Além da Saúde, o empresário  teria obtido facilidades no Ministério da Cultura.

No  inquérito, a PF diz que diálogos interceptados “demonstram que Bené, com  auxílio de Fernando Pimentel, possui ingerência no Ministério da Saúde  acerca de alocação de pessoas que possam auxiliá-los no atendimento de  seus interesses”.

O documento diz que, mesmo fora do  Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC),  Pimentel conseguiu nomear Gilnara Pinto Pereira para o cargo de  coordenadora-geral de Materiais e Patrimônio do Ministério da Saúde. Ela  é uma das responsáveis pelos pregões eletrônicos.

A  nomeação se deu no dia 8 de agosto do ano passado. Pimentel ocupou o  cargo de ministro de janeiro de 2011 a fevereiro de 2014. Ele deixou a  Pasta para se candidatar a governador de Minas Gerais.

Em  diálogo interceptado pela PF no ano passado, Bené diz a Gilnara que  precisava de alguém de “extrema confiança” para resolver algum problema  relacionado com um contrato no Ministério da Saúde. Depois disso, ela  foi nomeada para o cargo. Em outro diálogo com ela, ao comentar o  padrinho da indicação, Bené comenta: “Foi aquele amigo meu, que saiu do  outro ministério para ser candidato”. “FP?”, questionou Gilnara. “Isso”,  confirma Bené. Conforme os investigadores, “FP” é uma referência a  Pimentel.

O relatório não detalha quais foram as gestões da  Gilnara na pasta em favor de Bené. Entre as concorrências suspeitas,  menciona licitação de quase R$ 39 milhões do ministério com a Gráfica e  Editora Brasil, que está em nome de familiares do empresário.

A  empresa foi contratada para confeccionar material gráfico para  campanhas relacionadas a hanseníase, verminoses e tracoma, além de  cartões de carteira de medicação.

No Ministério da  Cultura, segundo a PF, “há suspeitas contundentes de fraude”. O edital  beneficiava a empresa de Bené. Foram verificadas “inconsistências” entre  o firmado no termo de referência e o pregão eletrônico que deu origem a  10 contratos e termos de aditivos que somam o montante de R$ 119  milhões.

Segundo a PF, das nove empresas que participaram  do pregão, quatro possuíam ligações com o Bené. A vencedora foi a  Gráfica e Editora Brasil. Procuradas pela reportagem, as defesas de Bené  e de Pimentel informaram que não vão comentar o conteúdo das  investigações, que correm em sigilo.

Gilnara, que ainda  trabalha no Ministério da Saúde, não foi localizada em seus telefones  funcionais. Ela também foi procurada por meio da assessoria de imprensa  da pasta, que, por ora, não se pronunciou, assim como a Cultura. O  governo de Minas explicou que não se manifestaria.

A  Operação Acrônimo, desencadeada em maio, investiga um suposto esquema de  corrupção, caixa 2 de campanha e lavagem de dinheiro envolvendo  Pimentel e Bené. Nas últimas fases da operação, a PF encontrou novas  provas de que o empresário e companhias que tinham relacionamento com o  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),  instituição subordinada ao Ministério do Desenvolvimento, faziam  pagamentos a pessoas ligadas a Pimentel, entre elas a primeira-dama de  Minas, Carolina Oliveira. A suspeita é de que o governador tenha usado  ”pessoas interpostas” para receber “vantagens indevidas”.