Três das maiores empresas de convênios de saúde do Brasil enfrentam-se numa briga feroz. Samcil, Trasmontano e Saúde ABC abriram 30 ações na Justiça umas contra as outras, incluindo acusações de calotes, desvios, traições e até ameaças de morte. No centro da disputa está uma disputa de família. Criador da Samcil, a terceira maior companhia do ramo no País, Luiz Roberto Silveira Pinto diz que foi enganado pelo sobrinho, Ricardo Silveira de Paula, dono da Saúde ABC, a 12a no ranking nacional. ?Foi uma facada pelas costas?, diz Luiz Roberto. ?Fiz tudo para ajudá-lo e ele me traiu.?

É uma briga pesada. Juntas, as três empresas faturam mais de R$ 450 milhões por ano e atendem 500 mil clientes. As empresas atuam com convênios. Seus fregueses pagam um valor mensal para ter direito a consultar médicos e usar hospitais credenciados. Uma prática comum é o atendimento dos pacientes de uma companhia na rede de outra mediante o pagamento de comissão. Essa é a origem da discórdia. Samcil e Saúde ABC brigam pela freguesia da Trasmontano. Dona de 30 mil vidas, segundo jargão do setor, a Transmontano atende muitos idosos. Como pagam mensalidade maior, são mais rentáveis para as empresas.

A história começou em 1996, quando os clientes da Trasmontano começaram a ser atendidos pela Samcil. Na época, ainda não havia surgido a Saúde ABC. Ricardo trabalhava no hospital Santo André, que pertencia à empresa do tio. Só em 1999, abriu a Saúde ABC, criada para atender clientes próprios e fregueses da Samcil no ABC, em São Paulo, e na baixada santista. Seus pacientes eram atendidos nos hospitais Santo André, Mauá e Pereira Barreto que pertencem à Samcil e foram alugados para a Saúde ABC.

A crise foi deflagrada no final de 2002, quando acabou o contrato da Trasmontano com a Samcil. O dono da Samcil disse que estava negociando a renovação do contrato quando soube que a Trasmontano ficaria com a Saúde ABC. ?Meu sobrinho sabia das negociações, tinha acesso a informações privilegiadas e me passou a perna?, diz. Irado, Luiz Roberto iniciou uma campanha contra os rivais. Acusou a Saúde ABC de deixar os três hospitais alugados da Samcil em péssimo estado de conservação e de sumir com equipamentos, no valor de R$ 15 milhões. Acusou a Trasmontano de não cumprir seis meses de aviso prévio e de dever parte da última mensalidade. Publicou anúncios com as denúncias em jornais da região e abriu processos pedindo indenização e a devolução dos hospitais.

Sua raiva se concentra no sobrinho, de quem é padrinho de casamento. ?Foi tudo premeditado?, diz Luiz Roberto. Segundo ele, Ricardo se separou judicialmente da mulher apenas para transferir bens para o nome dela, apesar de continuar morando com a esposa e ter comemorado 25 anos de casamento com uma festa no Jóquei Clube. ?Ele comprou carros importados e até um iate enquanto deixava os hospitais caírem aos pedaços?, diz. ?Foi traição. Meu sobrinho começou como plantonista e só montou a empresa graças aos contratos com a Samcil.?

Ricardo devolve o chumbo: move 20 processos contra o tio. Ele o acusa de ameaçá-lo de morte, de calúnia e de ter prejudicado seu negócio ao publicar anúncios com denúncias nos jornais. ?Foi uma prática predatória, típica de um empresário que sempre usou expedientes escusos?, ataca Ricardo. Na sua versão, não houve uso de informações privilegiadas. ?Há um ano eu não ia à Samcil?, diz. ?Foi meu tio que me disse que perderia o contrato e era para eu brigar pelos clientes da Trasmontano no ABC.?

Ricardo afirma que encontrou com diretores da Transmontano ?casualmente? e foi convidado a participar de uma concorrência. ?A Samcil perdeu o contrato porque seu atendimento é igual ao do SUS?, diz o dono da Saúde ABC, que usa os serviços da Samcil para atender seus pacientes de São Paulo. Ricardo nega as acusações: diz que seus hospitais são tão bem cuidados que a própria Samcil os recomendava. Além disso, rejeitou a acusação de traição. ?Não era ligado ao meu tio, meu contato era com outro sócio da Samcil?, argumenta. Quanto à separação, diz que o objetivo não foi transferir bens. ?Foi um período difícil, mas já superamos?. Já a Trasmontano informou que não deve nada porque o contrato com a Samcil dispensava o aviso prévio. Até entrou com uma ação pedindo indenização por danos contra a empresa. É mais um processo na guerra dos planos de saúde.