Quando era secretário do Tesouro do governo Clinton, o banqueiro Robert Rubin foi retratado na capa da revista Time ao lado de seu braço direito Larry Summers e do todo-poderoso Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Sorridente, Rubin, o ex-menino prodígio do Goldman Sachs, era retratado como um dos três mosqueteiros do mercado – ou marketeers, no trocadilho em inglês – que salvaram o planeta de um colapso financeiro generalizado. Começava o ano de 1999 e, apesar das fortes crises que abalaram o Brasil, a Rússia e o Sudeste da Ásia nos dois anos anteriores, o trio era elogiado por ter agido com presteza nos bastidores das finanças internacionais e evitado o derretimento global e a desaceleração da economia americana.

O título da reportagem dava o tom: “O comitê para salvar o mundo”. Oito anos e nove meses depois, Rubin foi novamente chamado para um resgate. Desta vez, está sozinho e sua tarefa parece mais adequada a Hércules do que a D’Artagnan. Terá de salvar o Citibank.

O maior banco dos Estados Unidos vive uma crise sem precedentes, talvez pior do que os calotes da dívida externa dos países da América Latina nos anos 80 do século passado. Está atolado na tragédia financeira do mercado imobiliário de alto risco de seu próprio país, a chamada crise do subprime. Este ano, suas ações já se desvalorizaram 37%, segundo a Economática. De 11 de outubro a 7 de novembro, o valor de mercado do Citi nas bolsas despencou de US$ 240 bilhões para US$ 166 bilhões. É como se desaparecesse, de uma só vez, um Bradesco inteiro (US$ 65 bilhões) mais um bom pedaço do banco do Brasil (US$ 44 bilhões). Isso ocorreu devido às desconfianças dos investidores com os impactos do subprime nos negócios da organização.

No mês passado, o Citi reconheceu perdas de US$ 5,9 bilhões com as operações envolvendo papéis imobiliários de alto risco. Mas o banco suspeita que ainda poderá perder entre US$ 8 bilhões e US$ 11 bilhões, a serem debitados do lucro no quarto trimestre. Suspeita é a palavra certa, porque ninguém sabe ao certo onde termina o buraco. A notícia explodiu no colo do presidente do Citigroup, Charles Prince III, no comando havia quatro anos. Demitido no domingo 4, depois de 29 anos de carreira na instituição, Chuck despediu-se dos funcionários com uma nota melancólica.

“Hoje estamos anunciando minha aposentadoria do Citi. Digo isto com tristeza”, começou. Ele assumiu a responsabilidade e explicou a decisão: “Sou responsável pela condução do nosso negócio. Julgo que, diante de perdas dessa magnitude, sair é a única solução honrada para mim”. Num mercado em que a principal matéria-prima é a confiança, não poderia ser diferente. “Um prejuízo da ordem de US$ 8 bilhões a US$ 11 bilhões é um volume bastante importante e a organização é obrigada a rever os critérios da direção”, disse à DINHEIRO o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano. Prince irá vestir o pijama confortavelmente. Seu pacote de saída prevê pagamentos de US$ 105,2 milhões em dinheiro e ações.

Enquanto Wall Street discute até que ponto os alicerces do Citi foram abalados, o banco alçou o experiente Rubin à presidência do Conselho de Administração, do qual era membro. Aos 69 anos, ele tentará reconquistar a confiança do mercado com seu prestígio pessoal. Irá rever estratégias, nomear um novo presidente executivo e arrumar a casa na área de renda fixa (os outros departamentos, como gestão de fortunas, mercado de capitais e ações, vão muito bem). Se depender do maior acionista individual do banco, o príncipe saudita Al-Waleed Bin Talal Alsaud – que já perdeu US$ 4 bilhões com a crise -, o eleito será Sanford Weill, o homem do Travellers Group que engoliu o lendário John Reed e transformou o banco no gigante atual, com US$ 2,2 trilhões em ativos, 200 milhões de clientes e 334 mil funcionários em mais de 100 países. No final de outubro, a bordo do jato do Citigroup, Weill foi encontrar-se com Al-Waleed em Riad, na Arábia Saudita, para convencê- lo a voltar. Weill não aceitou, mas emplacou Rubin na presidência do Conselho. Este formou um comitê de crise, com a presença de Richard Parsons, chefão da Time Warner; o brasileiro Alain Belda, da Alcoa; e Franklin Thomas, do Study Group

Por enquanto, Rubin repassou a gestão do mico – uma montanha de ativos financeiros imobiliários da ordem de US$ 55 bilhões – para o executivo Richard Stuckey, nomeando-o gerente de subprime. Uma boa aposta. Em 1988, Stuckey ajudou o Citi a destrinchar as apostas no fundo LTCM, que perdeu US$ 4,6 bilhões – cifra que, diante das perdas atuais, poderia ser chamada de peanuts. Nessa crise do subprime, a Merrill Lynch jogou US$ 8,4 bilhões para prejuízo, o que custou a cabeça do presidente Stanley O’Neal no dia 30 de outubro. Outros executivos bem pagos também se aposentaram mais cedo pelos mesmos motivos nos Estados Unidos e na Europa. Dentre eles, o co-presidente Warren Spector, do Bear Sterns; os diretores Huw Jenkins e Clive Standish, do UBS; e Stefan Ortseifen, do alemão IKB. Os próximos a cair poderão ser Jimmy Caine, do Bear Sterns, e Marcel Ospel, do UBS.

Ninguém sabe dizer a extensão total dos prejuízos. O mercado de subprime cresceu como uma bola de neve nos Estados Unidos nos últimos anos. Bancos e companhias hipotecárias emprestaram bilhões de dólares para clientes de alto risco. Pois a economia americana esfriou, o preço dos imóveis caiu e milhares de operações ficaram comprometidas, com garantia inferior ao valor emprestado. Os bancos, que além de conceder crédito emitiram títulos lastreados em hipotecas, multiplicando muitas vezes o tamanho do problema, agora são chamados a pagar a conta.

“A extensão da crise nos mercados de crédito foi completamente surpreendente e pegou de surpresa até os bancos centrais”, afirma o economista André Lara Resende, que atualmente trabalha como consultor financeiro em Londres. O Citibank, considerado grande demais para quebrar (too big to fail), deve sobreviver. Mas, para continuar líder, precisará demonstrar muito mais ao mercado que a simpatia do mosqueteiro Rubin.

“O SISTEMA ESTÁ PODRE”

Especialista em derivativos, o economista francês Eric Briys já trabalhou no Deutsche Bank, no Merrill Lynch e no Lehman Brothers. Ele trocou os bônus milionários para arriscar a sorte no próprio negócio, a biblioteca virtual Cyberlibris. Em passagem pelo Brasil, Briys fez palestra na FGV-SP e conversou com a DINHEIRO sobre a crise do subprime.

Qual é a profundidade da crise?
Ninguém sabe exatamente. As estruturas financeiras criadas em torno dos empréstimos subprime, como os CDOs, são muito complexas. Não há informações específicas sobre cada crédito embutido. É difícil determinar quem está exposto a qual tipo de risco. É preocupante.

Por que os bancos se expuseram tanto ao risco?
Já fui banqueiro de investimentos e sei o que os bônus de final de ano podem fazer. É simples: os funcionários dos bancos são pagos para jogar. E as suas melhores apostas são aumentar o risco do negócio, aumentar a volatilidade. Eles apostam sempre na alta. E o sistema regulatório está baseado em modelos de preço errados. Ou seja: eles são pagos para cometer os crimes e a arma é mais carregada do que deveria ser. Os banqueiros foram incentivados a alavancar as operações imobiliárias para ganhar mais dinheiro. O sistema está podre. A informação é errada, os incentivos também.

Pode haver insolvência de bancos?
A comunidade pode suportar a quebra de um grande banco? Não. Por isso, sempre terminamos na mesma situação: o emprestador de última instância chega para dar socorro. Nas crises da Ásia e da Rússia, como tantos investimentos foram feitos sem nenhuma referência de risco e retorno? Os caras foram em frente, pois sabiam que seriam socorridos pelo FMI.

O Fed deu liquidez e baixou os juros. É suficiente para salvar o Citi?
Não tenho certeza, nem o Fed. É evidente que a casa toda está fora de controle.