09/04/2026 - 13:45
Uma série de contas recém-criadas na plataforma na Polymarket, plataforma do mercados de previsão, lucrou centenas de milhares de dólares ao apostar com precisão em um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã no último dia 7 de abril.
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Além do absurdo da aposta em si, chama atenção o momento em que elas foram feitas. Pouco antes do anúncio oficial de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, o que levou a uma onda de suspeitas sobre o uso de informações privilegiadas vindas de dentro de instituições governamentais ou militares.
Horas antes do acordo de duas semanas ser firmado entre Estados Unidos e Irã, Trump chegou a postar que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, como ameaça caso o Irã não cumprisse a exigência de reabrir o Estreito de Ormuz até as 20h (horário de Washington) daquele dia.
Contudo, segundo a Associated Press, uma análise de dados da blockchain via plataforma Dune revelou um padrão incomum. Pelo menos 50 novas contas, ou carteiras digitais, fizeram apostas substanciais no “Sim”, ou seja, de que haveria um cessar-fogo, antes do post de Trump na Truth Social, que foi feito às 18h30. Outro ponto de atenção é que muitas dessas contas estavam fazendo sua primeira interação na plataforma.
Uma carteira criada às 10h da manhã investiu US$ 72 mil a um preço de 8,8 centavos de dólar por cota. Após o anúncio, o usuário lucrou US$ 200 mil. Outra carteira, que entrou na plataforma em 6 de abril e negociou exatamente esse evento, registrou um lucro de US$ 125,5 mil.
Foi identificada uma carteira, aberta apenas 12 minutos antes do anúncio de Trump, que investiu cerca de US$ 32 mil e embolsou US$ 48,5 mil de lucro, após apostar no “Sim” a 33,7 centavos de dólar por cota. O preço mais alto do “Sim” naquele momento pode ter refletido os esforços feitos na noite de terça-feira pelo governo do Paquistão para que Trump prorrogasse seu prazo por duas semanas.
Embora o movimento possa ser interpretado por alguns como uma estratégia baseada no histórico de recuos de Trump — o chamado fenômeno “TACO” (Trump Always Chickens Out ou algo como ‘Trump sempre recua’) —, a precisão e o volume dos aportes sugerem algo além de um palpite político.
Apesar dos lucros registrados, os pagamentos enfrentam obstáculos. A Polymarket classificou o contrato de 7 de abril como “disputado”, já que o Irã manteve restrições a navios no Estreito de Ormuz e ataques de mísseis continuaram na região. A resolução da disputa pode levar até 48 horas.
A Dune afirma que não é possível identifcar quem contrala as carteiras. Isso porque a Polymarket usa uma tecnologia em que um único usuário pode ter várias carteiras sob seu controle. Apenas a plataforma pode apontar se são novos usuários ou usuários antigos abrindo novas carteiras.
Procurada pela AP, a Polymarket não se posicionou.
“É altamente improvável que estas sejam trocas de boa-fé; é muito mais provável que sejam ‘insiders’ com acesso a informações antes do público. Sem restrições, nada impede que funcionários do governo ou militares lucrem com suas posições”, disse o deputado republicano Blake Moore, autor de projetos de lei para regular o setor.
O que aconteceu em 7 de abril não foi a primeira vez. Padrões semelhantes foram observados na Polymarket antes da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, e em outras ações militares envolvendo o Irã.
Atualmente, existe um esforço bipartidário no Congresso dos EUA para expandir a definição de “insider trading” para incluir mercados de previsão. Até mesmo gigantes do setor, como Kalshi e a própria Polymarket, já admitiram a necessidade de normas mais abrangentes para garantir a integridade das plataformas e evitar que o público seja prejudicado por quem detém segredos de Estado.
