Quando a sirene da fábrica da Ferrari avisa o início do turno matinal, a pequena cidade de Maranello, no norte da Itália, amanhece no mesmo ritmo da produção dos antológicos veículos. Nessa vila italiana onde se faz um dos mais desejados carros do mundo, o tempo pára enquanto uma Ferrari está sendo preparada. Para entender a verdadeira essência deste ícone de consumo, é preciso dar uma volta na linha de montagem da mítica fábrica de Enzo Ferrari, o piloto de Fórmula 1 que há 60 anos decidiu estampar o seu nome num carro de corrida. Apesar das inovações tecnológicas que garantem a manutenção da supremacia da marca italiana no automobilismo, a fábrica funciona à moda antiga. Motores e funilaria são acabados a mão. No setor de estofamento, um grupo de mulheres sentadas atrás de máquinas de costura trabalha sobre os couros Conolly, provenientes do norte da Europa. A especificação geográfica tem uma razão. Naquela região, as peles das vacas são mais finas e a ausência de mosquitos impede o surgimento de marcas. Para estofar cada Ferrari são necessárias três vacas.

Aura de exclusividade. A empresa foge totalmente dos padrões da indústria automobilística mundial. Deu as costas para o advento da terceirização e ainda mantém a sua própria fundição que trabalha 24 horas por dia. Segue a filosofia de Enzo Ferrari, falecido há 14 anos, de manter o controle sobre toda a produção. Enzo também queria perpetuar a aura de exclusividade em torno da marca. Seu desejo ainda é uma ordem. A Ferrari não tem um sistema de encomendas como a Mercedes-Benz e a BMW, nem visitas abertas ao público. É um circuito para poucos. Você precisa ter uma longa e sólida ligação com a prestigiada marca ou com um de seus concessionários para visitar a unidade fabril de Maranello. Também não pode ser um iniciante, ou seja, um comprador de Ferrari de primeira viagem.

Apenas 3.800 carros saem de Maranello por ano. Segundo o chairman Luca de Montezemolo, não haverá aumento de produção porque uma Ferrari tem de ser objeto de desejo e os clientes estão dispostos a esperar mais de um ano pela entrega do carro. A demora se explica pelo método de produção. As mesmas quatro pessoas que trabalham numa etapa da montagem do carro, mudam para a etapa seguinte onde cada membro executa tarefas diferentes. Vale a pena visitar a Galleria Ferrari, onde há uma vasta coleção de carros, fotos, troféus. O simulador de Fórmula 1 faz a alegria dos aficionados em alta velocidade. Um dos locais mais secretos de Maranello é o túnel de vento, onde um ventilador com cinco metros de diâmetro gera turbulências enquanto o carro é monitorado por mais de 300 sensores. Durante os Grandes Prêmios, a escuderia fica ligada via satélite a Maranello e todas as alterações que ocorrem nos treinos ou antes da corrida são ensaiadas previamente no túnel de vento.