29/05/2014 - 12:58
“O modelo de assinatura de músicas está falido”, disse, em 2007, o então CEO da Apple, Steve Jobs. “As pessoas querem ser donas de suas músicas”. Até então, a empresa da maçã apostava em seu iTunes e a venda de músicas unitárias por preços considerados, à época, módicos.
Sete anos depois da frase de feito de Jobs, a Apple, agora sob a tutela de Tim Cook, mudou de postura – e de forma radical. É o que sinaliza a compra da fabricante de fones de ouvido e de música online Beats, por US$ 3 bilhões, concretizada na quinta-feira 28.
O iTunes, a loja de músicas da Apple ,ainda é muito lucrativa. Em 2013, ela faturou cerca de US$ 6 bilhões dos US$ 10 bilhões ganhos com vendas de produtos digitais. O iTunes, contudo, vende outros materiais, como livros e filmes, e a empresa não detalha em seus resultados de onde vem cada dólar da receita do iTunes.
A loja online, contudo, vem perdendo participação no mix das vendas virtuais da Apple – que somam números do iTunes e App Store, sua loja de aplicativos. Segundo previsão da consultoria americana Morgan Stanley, já no quarto trimestre deste ano, as vendas da loja de aplicativos devem ser responsáveis pela maioria deste bolo – revertendo um quadro trimestral que já foi de 89% provindo do iTunes, em 2011.
Por outro lado, as empresas de streaming de conteúdo têm apresentado um avanço considerável em seus números. Netflix e Spotify, respectivamente, os maiores players de filme e música na internet, estão aumentando seus números.
A plataforma de vídeos online, por exemplo, já é responsável pela grande maioria do tráfego de internet no mundo e quebrou a barreira do bilhão de faturamento nos primeiros três meses deste ano. Já o Spotify aumentou o número de países que opera para 57 e, também nesta semana, chegou ao Brasil. Ao todo, a plataforma de música contabiliza um total de 4,5 bilhões de horas de música ouvidas, o que equivale a mais de 100 bilhões de streamings.
Neste sentido, a Apple precisava fazer um movimento para levar seus negócios de um mercado de mídia em declínio para outro que está em ascensão. Ainda mais que um dos focos da empresa é ganhar a maior tela da sala das pessoas: a tevê. A companhia já anunciou acordos com provedoras de internet para poder entregar o conteúdo de sua Apple TV e afirmou em eventos da empresa que pretende impulsionar os números vindos deste seu produto nos próximos anos. Quem conhece a estratégia da Apple sabe que a empresa prefere ter soluções próprias a usar plataformas abertas. Assim, faria sentido a empresa querer começar seus próprios serviços de streaming.
Na divulgação do acordo, o CEO da Apple, Tim Cook, afirmou que o negócio não é sobre o que a Beats está fazendo hoje, mas o que eles farão juntos no futuro. O que leva a crer que a Apple fará de tudo para aumentar os serviços da Beats, podendo a tornar em uma megaplataforma de vídeos, música e conteúdo sob demanda. “Eles têm um formato que consideramos de sucesso em agregar usuários”, disse Cook. A Beats também é famosa por ser uma marca de luxo e valor agregado, itens que a Apple também busca em seus serviços.
Mesmo com essas sinergias, o mercado ainda não digeriu a compra da Beats pela Apple. Segundo eles, nada que a Beats traz para a empresa, a Apple não poderia ter construído sozinha por menos de US$ 3 bilhões. A marca da maçã já é conhecida por sua característica premium, a Apple TV poderia receber uma solução própria de vídeo e os contratos de venda de música firmado com as gravadoras para o iTunes precisariam de apenas uma leve renegociação com para que uma plataforma de streaming da Apple entrasse em operação. “Nenhuma análise racional poderia explicar a valorização em US$ 3 bilhões pela Beats”, afirmou a consultoria de tecnologia PrivCo, que estima que a empresa do rapper Dr. Dre tenha um faturamento anual de cerca de US$ 1 bilhão e lucro de US$ 40 milhões. Além de uma base de usuários pequena em streaming, na comparação com seus concorrentes, como Spotify, Deezer e Rdio.
“A Apple poderia usar esse dinheiro para comprar empresas mais estruturadas, que ajudassem em um melhor posicionamento”, disse o analista Maynard Um, da Wells Fargo. “Mas damos o benefício da dúvida para a empresa, pelo seu histórico de sucesso”. Assim, cabe a Apple provar que os US$ 3 bilhões investidos na Beats não foram, na verdade, gastos. Para ser justo, até Steve Jobs deu o benefício da dúvida sobre o streaming. “Não acredito no streaming. Mas nunca digo nunca.”
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