A indicação do administrador de empresas Murilo Pinto de Oliveira Ferreira, 58 anos, para a presidência da Vale foi um dos segredos mais bem guardados da República nos últimos anos. Nunca antes na história da mineradora, tantos erraram tanto na bolsa de apostas de quem seria seu novo CEO – dos analistas de mercado, banqueiros e políticos à imprensa em geral, a DINHEIRO, inclusive. Decidida a degola de Roger Agnelli, atual ocupante do posto, com a concordância do Bradesco, um dos principais acionistas da Vale e seu principal sustentáculo, praticamente todas as fichas foram depositadas no nome de Tito Martins, atual presidente da Vale Inco, a subsidiária canadense do grupo. Outro Martins, José Carlos, diretor-executivo de Estratégia, Vendas e Marketing, corria por fora, mas suas chances desde sempre foram consideradas escassas.

Publicamente, pelo menos, ninguém cogitava a possibilidade de Ferreira ser o escolhido. Apadrinhado pela presidente Dilma Roussef, que o conhecera quando Ministra de Minas e Energia do governo Lula, Ferreira foi preservado até o fim, evitando-se, com isso que fosse bombardeado, seja pelas viúvas de Agnelli, seja pelos defensores da solução Tito Martins. Como os fatos demonstram, sua escolha já estava decida havia  um certo tempo – não é possível acreditar na história de que tenha sido pinçado a partir de uma lista tríplice encaminhada aos acionistas, por uma multinacional de headhunting, como chegou a ser anunciado.

Em lugar nenhum no mundo, uma empresa desse tipo poderia fazer um trabalho minimamente decente de seleção e negociação com executivos de primeira linha, em dois ou três dias, ainda mais para a preencher uma das mais importantes e complicadas (por todas as implicações políticas inerentes à empresa) vagas de CEO do setor privado nacional. É mais do que óbvio que Ferreira fora ungido há um certo tempo do anúncio oficial. O resto foi figuração.

A exemplo de Martins, Ferreira teve uma passagem pela Vale Canadá, de cuja a compra foi um dos principais responsáveis. Saíu em 2008, um pouco antes de pipocarem os primeiros problemas trabalhistas da mineradora com os sindicatos locais, causados por mudanças no sistema de remuneração. À época com 32 anos de companhia, Ferreira teve um ataque cardíaco. A enfermidade, juntamente com sua discordância em relação à fracassada tentativa de aquisação da mineradora suíça Xstrata, levaram ao seu desligamento. Foi sucedido por Martins, que em seu primeiro ano enfrentou sérias turbulência na área trabalhista. Considerado um “linha dura”, Martins quebrou uma greve que durou um ano, entre junho de 2009 e junho de 2010, deixando para trás ressentimentos e pesadas críticas ao seu estilo entre os sindicatos canadenses.

Celebrada por alguns, essa página do currículo profissional de Martins pode tê-lo prejudicado na reta final – a despeito da preferência de Dilma por Ferreira, ele contava com as simpatias do Bradesco. Afinal, já às voltas com ruídos em seu relacionamento com as centrais sindicais no País, não interessaria ao governo petista premiar com o comando de uma gigante como a Vale, uma das empresas brasileiras mais internacionalizadas, alguém considerado persona non grata, nos círculos trabalhistas, por mais brilhante que seja.