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No ainda fervente episódio provocado pelo ataque do Exército colombiano ao acampamento das Farc ? Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia ?, em território equatoriano, o presidente venezuelano Hugo Chávez não pensou duas vezes. Mesmo sem relação direta com a crise, ele enviou pelotões de soldados à fronteira com a Colômbia e não mediu palavras para se referir ao colega Álvaro Uribe, de Bogotá, a quem chamou de ?cachorro? e ?lacaio do imperialismo americano?. Foi quase uma declaração de guerra, imediatamente respondida por Uribe, que ameaçou denunciar o coronel venezuelano na corte de Haia, na Holanda, por financiar grupos terroristas ? o presidente colombiano diz ter provas de que Chávez repassou US$ 300 milhões às Farc. Tensão dessa escala não se via na América do Sul desde a Guerra das Malvinas, em 1982. E a grande questão, na crise atual, é uma só: por que Chávez busca o confronto? Afora sua simpatia pelas Farc, que seqüestram e matam com a finalidade de emparedar o governo colombiano, há razões políticas e econômicas. ?Chávez é cada vez menos popular e a nossa economia sofre com o desabastecimento crônico e uma inflação galopante?, disse à DINHEIRO Alejandro Peña Esclusa, um dos líderes da oposição venezuelana que hoje dirige a ONG Forza Solidaria. ?Ele tenta importar um conflito que não é nosso em busca de apoio popular?, reforça Raúl Baduel, ex-ministro da Defesa de Chávez, que também se bandeou para a oposição.

Os reflexos da crise econômica são visíveis nas ruas de Caracas. Nos supermercados, os produtos básicos sumiram das prateleiras. Só no mês de fevereiro, a cesta básica subiu 4% ? a inflação anual da Venezuela, de 25%, é, de longe, a mais elevada do continente. Por sinal, tem sido a maior desde 1998, ano em que Chávez chegou ao poder, com uma única exceção: o ano de 2002. Todos esses dados vêm sendo reunidos pela Forza Solidaria para demonstrar a tragédia que se abateu sobre a Venezuela ? e que agora ameaça desestabilizar toda a América do Sul. ?O mais dramático é que isso ocorre com o petróleo acima de US$ 100?, diz Peña Esclusa. De fato, se estivesse em boas mãos, a Venezuela já poderia ter dado um salto desenvolvimentista. Entre 1999 e 2006, os ingressos fiscais do País foram de US$ 99,2 bilhões, praticamente três vezes mais do que o volume de receitas entre 1994 e 1998. Boa parte desse dinheiro foi gasta num ?Fundo de Combate à Pobreza na América?, que já transferiu US$ 25 bilhões ao exterior, a países como Cuba, Argentina, Bolívia e Equador. Isso ajuda a entender o silêncio e a cumplicidade de vários governos sul-americanos em relação ao internacionalismo de Hugo Chávez. De outro lado, também explica por que a taxa de pobreza ? ao redor de 50% ? se manteve praticamente inalterada na Venezuela.

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TROPAS EQUATORIANAS: soldados foram enviados à fronteira pelo presidente Rafael Correa, que veio ao Brasil e disse que a guerra foi declarada pela Colômbia

Com uma economia em crise e uma taxa de popularidade que caiu de 60% para 38% em menos de um ano, o presidente venezuelano busca desesperadamente um fato novo. ?Chávez quer transformar a América do Sul num novo Oriente Médio, importando um conflito por petróleo que não se aplica à nossa região?, afirma Marcos Azambuja, vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. A análise do embaixador é precisa. Desde que chegou ao poder e passou a representar seu país na Opep, o cartel dos países exportadores de petróleo, Chávez foi o principal artífice dos cortes de produção que levaram o barril de US$ 25, em 1998, a US$ 106, na semana passada. Em várias oportunidades, o coronel de Caracas chegou a dizer que gostaria de ver o barril a US$ 200. Loucura? Talvez não. ?O novo nome da nova guerra fria é petróleo e os preços podem chegar a US$ 150 até o fim do ano?, avalia o empresário Mario Garnero, do grupo Brasilinvest. Caso isso ocorra, num hipotético cenário de guerra nos Andes, Chávez passaria a receber US$ 3,7 bilhões a mais, todo mês. É dinheiro para comprar muita coisa, incluindo armas e apoio político de outros países da região. Coisa que Chávez, aliás, já vem fazendo. Há vários anos, ele é um dos principais financiadores do Foro de São Paulo, uma organização de grupos esquerdistas que tem, entre os fundadores, o PT e as Farc.

Curiosamente, apesar da retórica belicista, o chavismo vem sendo um bom negócio para os ?inimigos? da Venezuela. Como o país hostilizou empresários e se desindustrializou (o número de fábricas caiu de 11,1 mil para 6,8 mil), as importações saltaram de US$ 4 bilhões para US$ 16 bilhões, desde 1998. E o comércio com a Colômbia, apenas nos últimos quatro anos, subiu de US$ 1,4 bilhão, em 2003, para US$ 6 bilhões, em 2007. O país de Uribe é hoje um dos principais fornecedores de alimentos para a Venezuela, mas ainda assim Chávez fechou suas fronteiras com a Colômbia, o que pode agravar o desabastecimento interno e a inflação.

 

Na contramão do mundo moderno, o governo venezuelano também impulsionou uma corrida armamentista no continente. Recentemente, Chávez comprou da Rússia 24 caças Sukhoi- 30MK, mil mísseis para combate arar, antiaéreo e antinavio, além de bombas guiadas a laser. No pacote também vieram 100 mil fuzis AK-101. Há denúncias de que parte disso foi parar nas mãos de milícias boliviarianas, um grupo paramilitar formado por chavistas fanáticos, e até mesmo das Farc. Ainda assim, o poder bélico da Venezuela é muito inferior ao da Colômbia, que tem apoio dos Estados Unidos. ?Mesmo com os brinquedos que comprou recentemente, Chávez não tem como liderar e vencer uma guerra?, disse à DINHEIRO William Perry, ex-funcionário do Departamento de Estado americano.

Até agora, Chávez já tocou as ?trombetas da guerra?, como disse seu amigo Fidel Castro, mas não puxou o gatilho. Seu colega equatoriano Rafael Correa, que veio ao Brasil em busca de apoio, também não descartou a possibilidade de confronto, uma vez que sua pátria teria sido agredida. E a posição brasileira na crise foi menos neutra do que deveria ter sido. Numa coletiva, o chanceler Celso Amorim condenou a Colômbia, que teria ?invadido a casa do vizinho?, mas não censurou o abrigo que Venezuela e Equador concedem aos guerrilheiros das Farc. O grave é que, ao negociar com terroristas que ele próprio financia, Chávez vinha posando de líder humanitário, no esforço para libertar reféns ? estima- se que haja cerca de 700 prisioneiros em poder das Farc. Entretanto, a morte de Raúl Reyes, o número dois do grupo, fez com que o venezuelano mostrasse sua verdadeira face. ?A estética do fascismo é sempre a mesma?, diz o economista Paulo Guedes. ?No fim da história, os ditadores sempre precisam de uma guerra.? No fim da semana, Chávez já falava em paz. Talvez porque saiba que não pode vencer a batalha.