08/06/2004 - 7:00
As imagens são bonitas. Vestindo a boina azul das Nações Unidas, os soldados desembarcam no Haiti para a primeira missão de paz chefiada pelo Brasil. Eles avançam pelas ruas e são recebidos efusivamente pela população. Essa situação festiva esconde problemas. Os 1.200 soldados acantonados em Porto Príncipe custarão ao País R$ 150 milhões, que poderiam custear 360 mil bolsas-família. Pago em dólares, o salário de um soldado que aqui é de R$ 564 salta no Haiti para R$ 3.000, mas teme-se que a ONU dê o calote. O Brasil quer com essa missão chegar perto do conselho de segurança da ONU, mas ao mesmo tempo deve US$ 118 milhões à instituição. Na ponta do lápis: o que o Brasil está fazendo no Haiti e não aqui?
?Se é para combater a barbárie, poderíamos empregar o dinheiro em combatê-la nos presídios brasileiros, onde há pessoas sendo decapitadas?, dispara o deputado Fernando Gabeira. Crítico da Missão Haiti, ele acredita que o Brasil poderia ajudar com programas de saúde e suporte cultural, mas não deveria se meter em missões de paz. ?Fomos lá tentar comprar uma vaga no conselho de segurança da ONU?, acusa o deputado. As críticas de Gabeira resumem boa parte da polêmica que cerca o episódio. Seis meses da tropa brasileira no Caribe custarão o equivalente à construção de sete presídios federais. Se a tropa ficar por um ano, custa o dobro. O governo, através do Itamaraty, explica que a ONU vai pagar os soldos ? cerca de R$ 50 milhões ? e que dos R$ 100 milhões restantes algo como 80% será reembolsado ao Brasil pela instituição. A rigor, nem uma coisa e nem outra são inteiramente seguras. A ONU é credora do Brasil e pode não reembolsar. E há dúvidas no governo sobre a capacidade das Nações Unidas em bancar os salários dos soldados em dólares.
Na terça-feira 25, o ministro José Viegas, da Defesa, discutiu com parlamentares a redução de 47% dos soldos militares no Haiti. ?Senão a ONU não paga e teremos que reduzir a tropa?, argumentou. Seria um golpe terrível para a guarnição. Houve disputa para ir ao Haiti por causa do soldo em dólares. Um soldado que ganha R$ 532, ganhará em Porto Príncipe US$ 972. Um capitão que aqui recebe R$ 2.800, ganhará lá US$ 3.200. O deputado Jair Bolsanaro diz que 80% dos militares da ativa eram candidatos a embarcar. Foram escolhidos os gaúchos porque constituem o único grupo treinado para missões de paz. Em sua maioria são brancos, o que, segundo Gabeira, constitui um erro crasso num país negro. ?Isso não é um problema?, contesta o porta-voz do Itamaraty, ministro Ricardo Neiva Tavares. ?As cores do Brasil são mais importantes
que a cor dos nossos soldados.? Até agora isso mostrou-se fato. Os 200 soldados brasileiros que chegaram ao Haiti na semana passada foram saldados a gritos de
bon baggai, expressão local que significa ?coisa muito boa?. Submetidos a uma
guerra civil violentíssima, os haitianos estão aliviados em ver capacetes azuis circulando por suas ruas empobrecidas. E mais felizes ainda porque a soldadesca vem do Brasil. ?Quando vêem a bandeira brasileira, ele gritam nomes de jogadores de futebol?, surpreende-se o comandante Carlos Chagas, oficial de informações
do estado-maior da ONU em Porto Príncipe.
Resta saber se esse gesto de simpatia vai produzir o efeito desejado. Todos
sabem que o Brasil deseja estar no conselho permanente de segurança, o co-
legiado fechado da ONU que toma as decisões mais importantes do organismo.
Mas é bom lembrar que a China, integrante do conselho com Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, não participa de missões de paz. É bom ter em mente,
por outro lado, que a China pode bancar sua presença no conselho com reservas superiores a US$ 300 bilhões, enquanto o Brasil, por comparação, tem apenas
US$ 20 bilhões. Os brasileiros ficariam orgulhosos e felizes em ver seu país no conselho de segurança ? mas eles certamente gostariam de saber quantas Missões Haiti esse privilégio pode custar. Talvez os brasileiros, que já pagam 40% do PIB
em impostos, achem que não vale a pena. ![]()