05/02/2014 - 7:45
Não faltou agitação à Vale no quarto trimestre. Da suspensão dos embarques devido às fortes chuvas no Sudeste à venda de ativos, a maior produtora de minério de ferro do mundo também aderiu ao Programa de Refinanciamento de Tributos Federais (Refis), uma conta que significou o desembolso de R$ 5,96 bilhões no final de novembro. Toda essa movimentação vai, agora, refletir no balanço que a companhia divulgará no fim de fevereiro.
?Será um trimestre bom, mas não espetacular?, afirma Renato Antunes, analista da Brasil Plural. Do lado positivo, o principal destaque da mineradora deverá ser a continuidade dos cortes de custos e despesas. No acumulado até setembro de 2013, por exemplo, a Vale já cortou R$ 5 bilhões em relação ao mesmo período do ano retrasado. Somente em despesas com vendas, gerais e administrativas, a empresa economizou quase R$ 2 bilhões.
A Vale também deve contar com preços mais favoráveis no mercado mundial para o minério de ferro ? até hoje seu principal produto. As estimativas para o preço médio dessa commodity, no quarto trimestre, variam de US$ 133 a US$ 140 dólares por tonelada ? estável ou um pouco maior que a dos trimestres anteriores.
O problema é que a alta da cotação só favorece a Vale em parte das vendas, como aquelas feitas no chamado mercado spot (à vista). Parte dos contratos da companhia é de longo prazo, e o reajuste é feito por outros critérios. Cerca de 20% deles, por exemplo, têm seus preços determinados por uma média de meses anteriores. Nesse caso, como os valores são menores que os praticados nos últimos meses de 2013, a alta na cotação não ajudará.
Vendas
A Vale também deve reforçar o caixa com a venda de ativos ? prática que prosseguiu no último trimestre. Entre as festas de fim de ano, por exemplo, a companhia vendeu todas as ações ordinárias que possuía da Log-in Logística. A operação lhe rendeu R$ 233 milhões. Naquela mesma semana, se desfez de uma participação de 44,25% que detinha na Fosbrasil por US$ 52 milhões.
O último ingrediente importante a pesar a favor da Vale é o câmbio. Como toda empresa internacionalizada, o dólar caro é favorável ao ser convertido em reais e encorpar a linha das receitas. Basta lembrar que a empresa foi a maior exportadora do País, no ano passado, segundo o Ministério do Desenvolvimento, com US$ 26,5 bilhões, para se ter uma ideia do impacto do câmbio em seus negócios.
Corte de custos, venda de ativos e receita impulsionada pelo dólar vão gerar uma combinação positiva em outra linha do balanço: o ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). ?A geração de caixa deve vir forte?, afirma Pedro Galdi, analista de investimentos da corretora SLW.
Pressões
Isso não quer dizer que o balanço da Vale só trará boas notícias, mas, mesmo nessa área, os impactos negativos já estão razoavelmente mapeados pelo mercado. O principal é a adesão da Vale ao Refis, que significará uma conta de quase R$ 6 bilhões neste trimestre, além de R$ 16,36 bilhões, parcelados em 179 meses e corrigidos pela taxa básica de juros, a Selic.
As avaliações do impacto do Refis nas contas da Vale dividem os analistas. Para alguns, ela pode levar a empresa a fechar o trimestre no vermelho. ?Se isso acontecer, não é preciso se assustar?, diz Antunes, da Brasil Plural. ?Seria uma perda contábil e já seria esperada?, afirma. Traduzindo: o impacto sobre o caixa, que é o que importa, seria pequeno.
O segundo e já esperado problema é a suspensão dos embarques de minério no fim de 2013, devido às fortes chuvas no Sudeste do País. No período, deixaram de ser embarcados 2,5 milhões de toneladas. ?Não deve representar um grande impacto no volume total?, afirma Galdi, da SLW, lembrando que até setembro, a companhia produziu mais de 200 milhões de toneladas de minério. Nenhum balanço de empresa é de ferro, nem o da Vale. Mas, até onde os analistas podem ver, não será neste trimestre que os problemas deixarão grandes marcas nos seus números.