18/12/2014 - 17:00
O empresário Abilio Diniz fez fama e fortuna com uma vida inteira dedicada ao varejo. Cresceu dentro do Pão de Açúcar, grupo fundado por seu pai, Valentim, nos anos 40, até tornar-se seu principal executivo. Portanto, seu retorno a esse ramo, agora como acionista do Carrefour, deveria tirar o sono do novo controlador do Pão de Açúcar – o também francês Casino, comandado pelo seu arquirrival Jean-Charles Naouri. Abalar a liderança dessa empresa, porém, não é uma tarefa nada simples. Mesmo no médio prazo, os especialistas não esperam uma reviravolta no setor.
“O Pão de Açúcar tem uma posição muito consolidada no Brasil”, afirma Cláudio Felisoni de Ângelo, presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Varejo (Ibevar). “Não vejo como isto pode ameaçar o seu domínio”. Os últimos dados consolidados pelo Ibevar no setor de varejo mostram que, em 2013, o Pão de Açúcar faturou R$ 64,405 bilhões. O Carrefour, nova menina dos olhos de Abilio, ficou em um distante segundo lugar, com R$ 34,012 bilhões.
Para se ter uma ideia, a diferença de R$ 30,4 bilhões entre as duas é mais do que tudo o que a americana Walmart faturou no País naquele ano – R$ 28,5 bilhões. Traduzindo: mesmo que Abilio gastasse toda a sua habilidade de persuasão para convencer os novos sócios a comprarem o Walmart – e os americanos topassem -, ainda assim, terminaria em segundo lugar. Se quisesse mirar um parceiro brasileiro, a Lojas Americanas, quarto maior varejista do País, segundo o Ibevar, o faturamento acrescido seria de apenas R$ 15,455 bilhões.
O especialista admite que existe espaço para que as redes cresçam por meio da consolidação, ou seja, comprando ou se fundindo com concorrentes, mas ressalta que o Pão de Açúcar não assistiria passivamente a uma onda de aquisições capitaneada pelo Carrefour. “Diniz dedicou toda a sua vida ao varejo e é do ramo, mas uma empresa é muito mais que um homem”, afirma Felisoni. Isso é ainda mais verdadeiro, quando se constata de que Abilio está se acostumando a um novo papel, desde que deixou definitivamente o quadro de acionistas do Pão de Açúcar, no ano passado: o de executivo que precisa negociar pactos e estratégias com acionistas controladores.
Lojas de bairro
Abilio estreou sua nova encarnação no papel de presidente do conselho de administração da BRF, uma das maiores empresas de alimentos industrializados do mundo. A grande dúvida, naquela época, era se ele, que nunca se fez de rogado e comprou brigas com a família e com parceiros de negócio para expandir o Pão de Açúcar, se adaptaria ao figurino de negociador. Os resultados mostram que, pelo menos na BRF, da qual Abilio também passou a deter uma fatia, a parceria está progredindo.
Outro modo de Abilio ajudar o Carrefour a crescer é seu conhecimento, que pode incentivar a adoção de novas estratégias e acelerar a expansão orgânica da companhia. Para Felisoni, mais do que dinheiro (Abilio concordou em pagar R$ 1,8 bilhão por 10% do Carrefour Brasil), a contribuição mais relevante do empresário para o negócio é sua experiência com lojas de pequenos formatos para o varejo. Há anos, ainda sob o comando de Abilio, o Pão de Açúcar decidiu investir em lojas de bairro, menores que os tradicionais supermercados e hipermercados. A ideia era atender à mudança de hábito dos consumidores, influenciados por diversos motivos, como o fim da necessidade de grandes compras mensais, devido à estabilização da economia, e a busca por comodidade, já que se deslocar para o mercado, nas grandes cidades, significa enfrentar trânsito e perder tempo.
O Carrefour insistiu, por muito tempo, apenas no formato de grandes lojas no Brasil. Somente nos últimos dois anos, a rede francesa passou a olhar com mais atenção para o modelo de pequenos formatos. “Esta sempre foi uma vantagem competitiva do Pão de Açúcar, que Abilio agora pode aportar no Carrefour”, diz Felisoni. Na teleconferência de imprensa na tarde desta quinta-feira 18, Abilio afirmou que não está preocupado em transformar o Carrefour Brasil no maior varejista do País, mas sim em fazer com que a empresa seja a melhor e se torne uma referência mundial. É claro que muitos empreendedores nessa situação – a de um distante segundo lugar do líder de qualquer setor – adotam o discurso de que preferem ser o melhor, e não o maior. Faz parte do jogo, mas, até onde se lembre, Abilio não entra em jogos para perder.
