A campanha presidencial deste ano é, sem dúvida, a mais disputada desde 1989. O segundo turno não deve ser menos emocionante. A presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, e o senador Aécio Neves, do PSDB, passaram à segunda etapa em condições mais equilibradas do que as pesquisas previam. Com uma diferença de apenas 8 milhões de voto, os candidatos se desdobrarão em mimos para conquistar o eleitor de Marina Silva, do PSB, a terceira colocada no pleito. A expectativa é de que a ex-senadora declare seu apoio formal a alguma candidatura ainda nesta semana, provavelmente a Aécio Neves.

Para os cientistas políticos, porém, a posição de Marina deve influenciar muito pouco a preferência dos 22,2 milhões de eleitores que a escolheram no primeiro turno. “Está acontecendo algo inédito nesta eleição”, afirma o sociólogo e cientista político Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “São os eleitores que estão pedindo para uma candidata apoiar uma chapa, e não o contrário”.

O professor refere-se à expectativa da maior parte do eleitorado de Marina de que a pessebista apoie o tucano Aécio Neves. Um dos motivos é que, no primeiro turno, Marina encarnou o desejo de mudança de parte dos brasileiros, expresso nas manifestações de junho do ano passado e pelo seu discurso de que praticaria uma “nova política”, que romperia com os padrões tradicionais de política e que daria espaço, em seu governo, aos melhores quadros de cada partido.

Cabeça a cabeça

“A maior parte dos eleitores de Marina votou por uma renovação e, portanto, pela saída de Dilma”, diz Baía. Segundo suas estimativas, 60% dos eleitores de Marina deverão migrar para Aécio no segundo turno. Outros 18% votarão em Dilma. Com isso, o tucano passaria para 48 milhões de votos e a presidenta, para 47,2 milhões. Restariam, ainda, 12% de votos de marinistas considerados “volúveis” – uma nada desprezível fatia de 2,7 milhões que desempatará a eleição, mas que ninguém sabe para onde penderá.

“O eleitorado de Marina é extremamente híbrido”, afirma a cientista política Christiane Romeo, professora do Ibmec/RJ. Segundo ela, sua candidatura atraiu grupos com perfis muito distintos: ambientalistas, ex-petistas frustrados com o governo de Dilma, eleitores de Eduardo Campos que seguiram com Marina. Mas o grupo que prevaleceu, entre os marinistas, foi o que apresenta um desejo difuso de mudança – algo que acaba se identificado com o candidato da oposição. “Acredito que a maior parte dos eleitores de Marina seja anti-PT”, diz a professora.

Marina pode ser presa de seu próprio discurso de mudança no primeiro turno. “Se ela apoiar Dilma, ficará desmoralizada como representante da nova política”, afirma Baía, da UFRJ. Christiane, do Ibmec/RJ, afirma ainda que os pesados ataques do PT contra a candidatura de Marina, no primeiro turno, também queimaram muitas pontes entre os partidos. “Restaram muitas mágoas do primeiro turno”, diz. Não por acaso, um dos momentos mais quentes foi o bate-boca entre Dilma e Marina, no debate da Rede Globo, após uma rodada de perguntas. As candidatas continuaram discutindo, mesmo com seus microfones cortados.

De qualquer modo, o desejo de mudança dos marinistas pode ser maior que a própria candidata. “Não se sabe o quanto a figura da Marina, em si, transfere votos para alguém”, afirma Christiane, do Ibmec/RJ. A maior parte dos eleitores da ex-senadora talvez tenha uma agenda própria – e deve manifestá-la no dia 26.