Thomas Gerhardt, o comandante da área de mercados emergentes da DWS Investments (gestora de recursos do grupo Deutsche Bank), é a personificação de uma figura muito em voga nos meios financeiros: o grande investidor enamorado pelo Brasil. Ele administra um BRIC Fund (fundo focado em papéis do Brasil, da Rússia, Índia e China) de 2,6 bilhões de euros, com 33% de ações brasileiras.

E acaba de por no mercado um fundo só de Brasil ? com 100 milhões de euros captados antes mesmo de ser oficialmente lançado. Direcionada apenas à compra de ações de empresas brasileiras de capital aberto, a aplicação foi criada para investidores alemães com apetite por risco. Gente em busca de retorno melhor do que os 3% ao ano oferecidos pela renda fixa na Alemanha. Em meados de março, a DWS convidou distribuidores de fundos para um café da manhã de apresentação do produto. Esperavam-se umas poucas dezenas de interessados. Apareceram 480 pessoas. O que demonstra que o Brasil está na moda também na Alemanha. Seja nas ruas de Frankfurt,onde motoristas de táxi discutem com prazer a magia do futebol de Ronaldinho Gaúcho e os problemas de Ronaldo com a balança. Ou no salão decorado com bandeiras verde-amarelas e mulatas em trajes carnavalescos, onde se discute a queda do risco País. ?Somos mais otimistas que vocês?, diz Gerhardt. A DWS tem fundos de 600 milhões de euros na Rússia e na Índia e de 400 milhões na China. Para o executivo alemão, o fundo brasileiro tem potencial para ter tamanho semelhante.

O interesse da Alemanha é boa notícia para o Brasil. A taxa de poupança da mais poderosa economia européia é uma das mais altas do mundo ? contrapartida de um nível de consumo anêmico. Isso significa que há muito dinheiro disponível para investimento. O fundo lançado pela DWS é o segundo puramente brasileiro vendido na Alemanha. Há um do britânico HSBC. Mas este é o primeiro oferecido por um gestor alemão. Em uma entrevista coletiva para a imprensa germânica no Kempinski (hotel onde a seleção brasileira se hospedará durante a Copa do Mundo, há 20 quilômetros de Frankfurt), Gerhardt revelou que uma grande parte do fundo brasileiro, cerca de 27%, está concentrada em commodities. Com mais foco em agronegócios e menos em aço. ?As siderúrgicas brasileiras são competitivas, mas há um problema mundial de superoferta?, justifica o executivo. Daí a preferência por papéis de empresas como a Cosan, líder nacional na produção de álcool combustível. A DWS comprou 5% das ações que a companhia pôs no mercado em sua recente abertura de capital. O fundo investe também nos setores financeiro (tem ações dos bancos Itaú, Bradesco e Unibanco) e imobiliário (Rossi, Cyrela e Gafisa).

Gerhardt observa com interesse a onda de aberturas de capital dos últimos dois anos. ?Eu não preciso de novas empresas de telecomunicações. Mas quero mais papéis ligados à agricultura?, disse ele à DINHEIRO. Pelos cálculos da DWS, embora a Bolsa de Valores de São Paulo tenha subido com vigor nos últimos dois anos (98% em euros), os ativos brasileiros ainda são comparativamente baratos e o potencial de crescimento das companhias locais não reflete adequadamente em seus preços.

O gestor alemão está convencido de que haverá volatilidade no mercado brasileiro no período eleitoral que está se iniciando. E sabe que terá de responder a perguntas espinhosas sobre a política sul-americana, por causa de personagens polêmicos como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o da Bolívia, Evo Morales. Mas não vê essa desconfiança como um obstáculo importante. ?Quem está preocupado com isso não vai mesmo aplicar neste fundo?, observa Gerhardt. ?Nosso alvo são investidores atrás de oportunidades de lucro em um dos países vencedores da globalização.?