O economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central (BC) e fundador da Rio Bravo Investimentos, criticou nesta segunda-feira, 16, a atual condução da política fiscal no país. “O governo federal parece uma prefeitura quebrada, que meio que não paga ninguém direito, tem umas dívidas que paga, outras que não paga”, disse.

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O economista discutiu as tentativas do governo federal de ajustar as contas públicas através do aumento de receitas, o que chamou de “alternativa de esquerda” para o problema fiscal. “Não houve esse ajuste fiscal pela esquerda, tampouco pela direita. O que teve foi aumento da dívida”, disse.

O cenário provoca apreensão no ex-presidente do BC. Ele destacou que o atual nível da dívida pública, em quase de 80% do PIB, é inédito e “não se sabe qual o limite”. Criticou também uma visão que opõe ajuste de contas públicas e políticas sociais. “A capacidade financeira para executar problemas sociais decorre de finanças públicas bem administradas. Tem dinheiro desperdiçado demais.”

Apelidado de Taxad por opositores, o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu em diversos momentos uma maior tributação das camadas populacionais mais ricas no país. Uma metáfora repetida por ele em diversas ocasiões dizia que “moradores da cobertura” deveriam contribuir e não pagavam condomínio.

Para Gustavo Franco, medidas para aumentar tributação carecem de popularidade. “É a primeira vez que um ministro da Fazenda abertamente propõe aumentar impostos à sociedade desde a volta da democracia”, comentou. “Imposto é um negócio que o Brasil não gosta, já tem muito.”

Política fiscal e monetária em descompasso

O ex-presidente do BC destacou que o elevado patamar atual da taxa básica de juros, em 15% ao ano, resulta do endividamento. Ele comparou a situação do país a uma empresa, cujo aumento das dívidas eleva o custo do crédito.

“A política fiscal não é consistente com a política monetária. Tanto gasto não é consistente com a estabilidade da moeda. Superar déficit primário não é consistente com a meta de inflação que o próprio governo fixa, que está em 3%”, disse.

A fala ocorreu durante uma palestra para representantes do setor produtivo no 19º Congresso Internacional das Indústrias Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados). Franco aproveitou a ocasião para conclamar os empresários a pressionarem por mudanças na gestão das contas públicas.

Palestra de Gustavo Franco trata da situação fiscal durante o 19º Congresso da Abimapi
Palestra de Gustavo Franco trata da situação fiscal durante o 19º Congresso da Abimapi (Crédito:Matheus Almeida/IstoÉ)

“As duas últimas eleições não tiveram debate sobre a economia e a política econômica”, disse. “Agora eu acho que está na hora de trazer a economia de volta para esse debate. E o que vai trazer a economia de volta à atenção dos poderosos é o setor produtivo fazer a sua voz ser ouvida em Brasília.”

Como prioridade máxima para um próximo governo, Franco considera ser necessário trazer de volta o grau de investimento para o país, o que abaixaria os juros. “Só com finanças públicas de primeiro mundo é que a gente tem juros de primeiro mundo.”

Agenda irá se impor

Ao mesmo tempo em que conclamou o setor produtivo às cobranças, Gustavo Franco transmitiu uma mensagem positiva sobre mudanças após o período eleitoral.

“Mesmo que não apareça um terceiro nome, eu tenho impressão que a agenda de mudanças vai se impor aos dois”, disse, sem citar nominalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato a reeleição, e Flávio Bolsonaro, que também aparece em destaque nas pesquisas.

Franco também afastou pessimismo em relação a uma suposta crise já contratada para o próximo ano. Ele comparou a situação à hiperinflação que precedeu o plano Real. “Eu gosto de pensar que, lá em 1993, tudo parecia perdido, inclusive sem liderança, sem ninguém conseguir chegar no escritório do ministério [da Fazenda] para apertar os botões. De repente, um ano depois, estava tudo certo. O Brasil tem isso.”

*O repórter viajou para o evento à convite da Abimapi