24/02/2005 - 7:00
Bancos, bolsas, empresas e governos, agentes econômicos do mundo todo estão empenhados em uma das experiências científicas mais instigantes das últimas décadas. O objetivo é transformar gás carbônico em um ativo financeiro. Mais especificamente, fazer dos projetos de redução de poluentes na atmosfera uma espécie de moeda corrente para uso internacional. Com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto na quarta-feira 16, a concorrência em torno da engenharia financeira que permitirá aos países ricos comprar ar puro das nações em desenvolvimento ganhou status de corrida do ouro. E o Brasil aparece bem no páreo. Até o segundo semestre deste ano, a Bolsa de Mercadorias & Futuros inaugura na Bolsa do Rio de Janeiro um pregão específico para transações eletrônicas com créditos de carbono. Serão negociados ali títulos gerados por projetos brasileiros de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa. Soa um tanto abstrato, mas o mercado de compra e venda de gases já movimentou US$ 670 milhões no ano passado, com negócios divididos entre duas bolsas: a Chicago Climate Exchange, nos Estados Unidos, e a European Union Emission Trading Scheme, na Inglaterra. A partir de agora, União Européia, Suíça, Canadá, Japão e Croácia estarão sujeitos a pesadas multas caso não cumpram suas metas de redução das emissões de poluentes. Alternativamente, poderão comprar créditos referentes a projetos de despoluição em países emergentes para abater sua dívida ambiental. Com isso, o mercado deve explodir. Estima-se um movimento de US$ 13 bilhões até 2007. ?E o Brasil pode ficar com até 10% das transações globais?, acredita Guilherme Fagundes, chefe do Departamento de Projetos da BM&F.
Algumas companhias nacionais largaram na frente e já comercializam créditos gerados pelos projetos de redução das emissões de dióxido de carbono. É o caso da Suzano, que tem cinco milhões de toneladas de carbono listadas na Bolsa de Chicago. Cada tonelada vale dois dólares nos Estados Unidos e até sete euros na Europa. ?Mas o preço deve subir com a entrada em vigor do protocolo?, prevê André Dorf, diretor de Novos Negócios da Suzano. Entre os bancos, o mais avançado no País é o ABN, que já investiu US$ 30 milhões no novo negócio. O grupo holandês financia a elaboração de projetos de empresas dispostas a reduzir a emissão de carbono e antecipa recursos para a compra de créditos. ?Os contratos são promissores, mas arriscados?, pondera Vitor Hugo Kamphorst, superintendente do ABN. Para se enquadrar no Protocolo de Kyoto, um projeto precisa cumprir severas exigências ambientais. O desafio é encontrar o equilíbrio entre benefício para o meio ambiente e retorno para o investidor. ?Um projeto ambiental muito lucrativo não tem chance de receber o certificado?, diz Allan Riddell, da KPMG.
Associado ao novo pregão, será criado um banco de projetos, disponível na internet. Todas as iniciativas ali listadas terão passado por uma avaliação prévia, o que reduz o risco de fracasso na obtenção do certificado. ?Quando começarem as negociações na bolsa brasileira, as transações terão mais credibilidade?, acredita Craig McBurnie, diretor mundial de commodities do ABN, que esteve no Brasil na semana passada em busca de novas possibilidades de negócio. Dito de outro modo, investidores estrangeiros contam com um toque brasileiro na delicada alquimia necessária para transformar carbono em ouro. ![]()