O conforto do juro real mais alto do mundo não acalenta mais os sonhos dos investidores brasileiros. Com a inflação sob controle, abaixo de 4% ao ano, o Banco Central tende a continuar a redução gradual da taxa básica, a Selic, que serve de referência para todo o mercado de renda fixa. Um ano atrás, a Selic estava em 16,5% ao ano. Hoje, é de 12,5%. Deve continuar emagrecendo nos próximos meses, chegando a um dígito no ano que vem. “O juro real está em torno de 8%. É factível que, em dois anos, esteja na metade disso”, prevê Alexandre Zákia Albert, diretor de Produtos de Investimento e Clientes Institucionais do Banco Itaú.

Os rendimentos dos fundos de renda fixa e renda fixa DI ainda são, de um modo geral, bastante elevados para padrões internacionais. Mesmo assim, estão cada vez menos interessantes para quem estava acostumado à blindagem dos juros estratosféricos. Não é o caso de pular da janela, tampouco mergulhar de cabeça na onda otimista que invade o País e aplicar tudo na Bolsa ou nos fundos multimercados. Mas deve-se começar a necessária e saudável diversificação das carteiras e aproveitar as oportunidades dos outros mercados, sempre da forma mais prudente possível. “O investidor insatisfeito tem de mudar o eixo das aplicações e ficar atento para tomar riscos”, recomenda Zákia.

Os próprios fundos de renda fixa deverão assumir mais riscos na gestão dos ativos para preservar a rentabilidade e os clientes. Como? Substituindo papéis públicos por títulos privados, que pagam juros maiores, e até buscando alternativas de investimento em ativos no Exterior. “A renda fixa vai ter que sofisticar as operações, aumentar os riscos de crédito e de mercado para ser competitiva“, afirma André Abreu, gestor de Renda Fixa da BB DTVM.

Essa corrida já começou. Os fundos distribuídos pelo BB já têm 24%, em média, de títulos privados. Há cinco anos, essa parcela era mínima. O mesmo acontece no caso do Itaú. Seus fundos de renda fixa já têm entre 25% e 35% de papéis de dívida de empresas e instituições financeiras. “É cada vez mais desafiador manter a atratividade da renda fixa. Os papéis privados ajudam bastante”, diz Érico Capelo, gestor de Fundos de Renda Fixa do Itaú.

A possibilidade de aplicar até 10% do patrimônio lá fora (ou 20% no caso dos multimercados) foi recentemente aprovada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e está em estudo pelos bancos e administradores independentes de recursos. O HSBC está criando três fundos para aproveitar a deixa. “A possibilidade de investir no Exterior vai nos ajudar”, diz Pedro Bastos, diretor da HSBC Investments. “Bem ou mal, o juro no Brasil ainda é alto. Mas a diversificação já é uma belíssima oportunidade”, acrescenta Renato Ramos, diretor de Renda Fixa da administradora do HSBC.

Não se pode esquecer que a renda fixa ainda é uma aplicação considerada segura e ainda atrai simpatizantes. “Não é verdade que está todo mundo fugindo da renda fixa. Tem muita gente entrando”, assegura Abreu. Em um ano, o patrimônio do fundo BB 50 Mil FIC Ref LP, que está no ranking de R$ 10 mil a R$ 50 mil, saiu de R$ 5 bilhões para R$ 8 bilhões.

No fundo, está ocorrendo um pouco de migração entre os cotistas, rumo ao risco maior. É como uma escadinha: quem tem DI transfere parte do dinheiro para a renda fixa prefixada e quem está nesta categoria procura ações e multimercados. Para não se assustar com a inevitável volatilidade dos mercados, vale a pena seguir à risca a dica dos gestores responsáveis: leia tudo o que puder sobre investimentos e os fundos antes de fazer qualquer migração de recursos. A internet é uma boa fonte de informações, especialmente os sites das instituições financeiras e dos órgãos regulador (CVM) e auto-regulador (Anbid). “Ninguém lê bula de remédio nem prospecto de fundos. Precisa ler”, recomenda Zákia. “Quem não gosta ou não tem tempo para isso deve ficar no DI, é mais seguro.”

Colaborou Márcio Kroehn