O Linux enfrentará nos próximos meses o maior teste da sua história no mercado brasileiro. Pela primeira vez, o sistema operacional deixará o exílio das experiências do mundo corporativo e será comercializado em computadores para o consumidor final, no grande varejo. Nessas máquinas, o Linux será o único software encarregado de fazer o computador funcionar. Não haverá sombra do Windows, da Microsoft, o seu maior rival. As maiores redes de varejo do País, como a Extra e a Eletro, do grupo Pão de Açúcar, venderão em novembro esses PCs que custarão, em média, R$ 500 a menos do que o concorrente. Outras redes estão negociando sua entrada no projeto. Será a segunda experiência desse tipo no mundo. No início do ano, a rede americana Wal-Mart fez um projeto semelhante e comercializou até agora 50 mil unidades a partir de US$ 299 cada. ?A resposta dos consumidores nos surpreendeu?, disse à DINHEIRO, Cynthia Lin, diretora de comunicações do Wal-Mart. ?Estamos muito contentes com as vendas?, entusiasma-se Lin.

No caso do Brasil, a aposta é na mesma direção. A Metron abastecerá as redes de varejo com máquinas Linux, que foi criado em 1992 pelo finlandês Linus Torvalds. Maior fabricante de PCs do País, a empresa reservará 10% da sua capacidade de produção para esses novos computadores. Serão 20 mil unidades nos próximos dois meses. Até o Natal, um outro modelo com Linux também deverá chegar ao varejo pelas mãos da japonesa Toshiba. Até o momento, o PC da empresa, apelidado de Lince Linux, só chegou a pequenas redes regionais. As lojas de varejo estão fazendo essa aposta porque o Linux, que é gratuito, pode garantir uma melhor rentabilidade nas vendas de final do ano que, em função da alta do dólar, da crise econômica e dos custos do Windows, estão cada dia menores. Como 98% dos componentes dos PCs são atrelados ao dólar, a valorização da moeda americana tornará ainda mais caras as máquinas com Windows. Hoje esses computadores saem em média por R$ 1.900, mas podem chegar a R$ 2.400 em função do dólar. ?O mercado de tecnologia é altamente sensível a preço. Se o valor sobe, os clientes somem?, diz Roberto Fulcherberguer, gerente de tecnologia do Extra. ?Por outro lado, as vendas crescem expressivamente quando reduzimos o preço.?

 

O aumento do preço dos PCs com Windows praticamente inviabilizaria a competição dos grandes varejistas com o chamado mercado cinza, que domina 70% de todo o setor e é formado por empresas que fazem contrabando de componentes. Nos últimos quatro anos, os fabricantes que atuam na legalidade conseguiram manter o preço em reais mesmo com o dólar subindo mais de 139%. ?Os produtores de hardware fizeram malabarismos?, diz Marcelo Quintas, analista do instituto de pesquisas International Data Corporation, o IDC. Todavia, no mesmo período, os vendedores de software como a Microsoft, que controla 98% do mercado de PCs com seu Windows, se mostraram irredutíveis e atrelaram o preço dos seus programas em dólar. Como resultado, o software, que há quatro anos representava 6% do custo total de um PC, hoje chega a 20%. ?O único lugar em que ainda podíamos tirar gordura era nos programas?, diz o presidente da Metron, Leone Picciotto.

Por isso a aposta no Linux, que tem milhares de desenvolvedores no mundo todo produzindo editores de texto, planilhas de cálculos e jogos. Até agora, ele era usado pelas empresas para reduzir seus custos com softwares. Gente do tamanho do Metrô de São Paulo, por exemplo, tem quase todos os seus arquivos sendo gerenciados por Linux. ?Esse software é um sucesso de mercado para nossa empresa?, diz Walter Merege, gerente de tecnologia da Toshiba. Na defensiva, a Microsoft já esboçou uma reação e está trabalhando com um dólar a R$ 3,11. Seu atual presidente no Brasil, Emílio Umeoka, está na função há poucos meses, vindo da Compaq, e conhece bem as dificuldades dos fabricantes em relação aos custos do sistema opercional. ?Esta é a grande chance do Linux provar suas qualidades?, diz o professor Fernando Meirelles, da Fundação Getúlio Vargas, um dos principais pesquisadores do País na área de tecnologia. Essa disputa pode ser o Waterloo dos softwares, mas só que desta vez os anglo-saxões da Microsoft correm o risco de perder a batalha.