11/04/2001 - 7:00
A imprensa pode ser um bom negócio, sim senhor. Pergunte ao ex-governador de São Paulo Orestes Quércia. Depois de fechar a venda do Diário Popular para a Infoglobo, o braço de mídia impressa da família Marinho, Quércia planeja voltar a investir em um jornal ? a ?médio prazo?, como diz. Por médio prazo, entenda-se depois das eleições de 2002, nas quais pretende concorrer a governador ou senador. Quércia não dá detalhes sobre a operação futura, mas não é difícil entender seu entusiasmo com o ramo de comunicação. O Diário Popular foi arrematado há cerca de dez anos por US$ 5 milhões. Centenário e decadente, vendia 20 mil exemplares e encontrava-se na terceira colocação em anúncios classificados, uma das principais fontes de receita de um jornal. Na semana passada, líder em classificados e com tiragem de 160 mil exemplares, o Dipo, como é chamado, foi arrematado pelo grupo de Roberto Marinho por R$ 200 milhões. Metade representa o endividamento assumido pelos compradores. O restante foi para o bolso do ex-governador.
O dinheiro será usado em outros empreendimentos. O principal deles é a revitalização do tradicional Hotel Jaraguá, localizado ao lado da atual sede do Dipo, no centro da capital paulista. O hotel está sendo inteiramente reformado, ganhará um espaço de 6 mil metros quadrados para convenções e terá a capacidade de 417 apartamentos. O custo final será de R$ 27 milhões. Uma administradora hoteleira internacional poderá ser sócia. Outra parte do dinheiro arrecadado com a venda do jornal será destinada à construção de um shopping center em Araraquara, interior de São Paulo.
Quércia não está se aventurando em setores desconhecidos. Seu grupo empresarial já possui um hotel e três shopping centers, além de centenas de imóveis. O portfólio ainda inclui 7 estações de rádio AM e FM, duas retransmissoras do Sistema Brasileiro de Televisão de Sílvio Santos e o site de notícias econômicas Panorama Brasil. O Dipo, saiu da lista por dois motivos. Um: candidato a candidato em 2002, ele não quer ser adversário dos grandes periódicos paulistas, como Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, no mundo dos negócios. ?Não é bom ser dono de jornal e candidato ao mesmo tempo?, diz Quércia. Motivo dois: após recuperar a imagem e a saúde do jornal, faltava-lhe fôlego financeiro para investir na arrancada final, embora fature R$ 130 milhões e lucre de R$ 12 a 14 milhões. ?O jornal precisa de investimentos pesados em marketing e distribuição?, diz ele.
As limitações criaram uma oportunidade de ouro para a Globo. Atuar no mercado paulista era um sonho antigo dos Marinhos. Líder absoluto no setor de comunicação brasileiro, a rede não tinha um pé fincado no maior mercado consumidor do País. Na primeira reunião com a cúpula do jornal, Luís Eduardo Vasconcelos, diretor da Infoglobo, garantiu que não haverá intervenções significativas na operação da publicação, cujo público leitor concentra-se nas classes B e C. O mesmo não acontecerá em relação à concorrência. Dias antes do anúncio da venda, um emissário do jornal Folha de S. Paulo procurou Quércia com uma proposta para levar o Diário Popular. Era tarde demais.