O PSOL está analisado a Medida Provisória 608/2013 para decidir se  apresenta aditamento à representação apresentada em outubro deste ano  contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no Conselho de  Ética da Casa. Segundo o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), o partido está  consultando economistas para analisar principalmente a interpretação do  artigo 3 da MP, alvo de emenda supressiva apresentada pelo  peemedebista.

O trecho prevê que, em caso de falência ou  liquidação extrajudicial de um banco, o total do saldo de crédito  presumido poderá ser usado por quem adquirisse a instituição, desde que o  banco tivesse decretado falência a partir de 1º de janeiro de 2014. A  suspeita é de que a emenda apresentada pelo presidente da Câmara pode  ter beneficiado o BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, que adquiriu  em 2013 a massa falida do banco Bamerindus.

Documento  colhido em buscas feitas na semana passada, na casa de Diogo Ferreira,  assessor do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), cita  pagamento de R$ 45 milhões feito pelo BTG a Eduardo Cunha pela emenda. O  banqueiro e o senador foram presos na última quarta-feira sob acusação  de estarem tentando atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato.  Eles são suspeitos de tentar comprar o silêncio do ex-diretor da área  Internacional da Petrobras Nestor Cerveró durante delação premiada.

“Em  troca de uma emenda à medida provisória número 608, o BTG Pactual,  proprietário da massa falida do banco Bamerindus, o qual estava  interessado em utilizar os créditos fiscais de tal massa, pagou ao  deputado federal Eduardo Cunha a quantia de R$ 45 milhões”, diz o texto  anotado em uma anotação de Diogo Ferreira apreendida.

O  texto dizia ainda: “pelo BTG, participaram da operação Carlos Fonseca em  conjunto com Milthon Lyra. Esse valor também possuía como destinatário  outros parlamentares do PMDB. Depois que tudo deu certo, Milton Lyra fez  um jantar pra festejar. No encontro tínhamos as seguintes pessoas:  Eduardo Cunha, Milton Lyra, Ricardo Fonseca e André Esteves”.

Vender facilidade

“A  alegação dele (Cunha) é de que a emenda era contrária ao interesse do  banco. Mas uma coisa é certa: ninguém anota uma questão dessa em um  documento que caiu do espaço”, questionou o deputado Ivan Valente. Na  avaliação do parlamentar, a apresentação de uma emenda “não quer dizer  nada”.

“Aqui na Câmara muitas vezes se apresenta emenda  para criar dificuldade e vender facilidade”, afirmou, sugerindo que  Eduardo Cunha pode ter apresentado emenda para constranger o banco. O  parlamentar do PSOL questiona por que Cunha comemorou a aprovação da  Medida Provisória ao lado de André Esteves, se o peemedebista tinha  apresentado emenda contrária aos interesses do dono do banco.

Valente  afirmou que o artigo 3 está sendo avaliado por economistas do PSOL, da  Câmara e outros “amigos” do partido. Após a conclusão da análise, a  ideia é conversar com a Rede Sustentabilidade. O partido foi coautor  junto com o PSOL da representação contra Cunha no Conselho de Ética  apresentada em outubro, sob a acusação de ter mentido que tinha contas  secretas na Suíça durante depoimento na CPI da Petrobras. “Óbvio que se  for materializado qualquer irregularidade, vamos apresentar aditamento”,  afirmou. Os estudos da MP será discutido durante reunião de partidos  que fazem oposição ao presidente da Câmara, marcada para amanhã.