NA QUARTA-FEIRA 30, GILBERTO GIL reassumiu o Ministério da Cultura após mais uma turnê pela Europa. A volta, no entanto, durou poucas horas. No mesmo dia, ele entregou sua carta de demissão – a terceira desde que tomou posse, em janeiro de 2003. Dessa vez, era irrevogável. O motivo: o artista não consegue viver com o salário de ministro, de R$ 10,7 mil. “Não tenho uma poupança que me permita passar quatro anos vivendo com este salário”, Gil já tinha avisado, logo ao assumir o cargo. Sua última turnê antes do governo, patrocinada por empresas de telecomunicações, havia lhe rendido R$ 2 milhões. Ainda assim, ele aceitou o convite. E, no governo, manteve em paralelo a vida artística. Só neste ano, Gil passou 105 dias afastado, em licenças nãoremuneradas, e sua situação se tornou insustentável. No fim, o bolso falou mais alto e Gil decidiu trocar a burocracia brasiliense pelos palcos.

O ministro da Cultura não é um caso isolado. Quando Lula chegou ao Palácio do Planalto, montou uma equipe de governo cheia de estrelas. Para ministérios estratégicos, como Agricultura e Desenvolvimento, convidou empresários bem-sucedidos como Roberto Rodrigues e Luiz Fernando Furlan. Os dois fizeram um bom trabalho, mas também já trocaram os sacrifícios da vida pública pelo sucesso privado. Rodrigues montou um fundo de investimentos para financiar projetos de álcool e biodiesel com a meta de captar US$ 200 milhões. “Com US$ 150 milhões, por exemplo, daria para construir uma usina rentável com capacidade para moer dois milhões de toneladas de cana por ano”, diz. Furlan, por sua vez, hoje é sócio da Galf Empreendimentos e presidente do conselho de administração da Fundação Amazonas Sustentável, além de grande acionista da Sadia. Entre as empresas das quais participa do conselho de administração ou consultivo estão: Panasonic, Redecard, Amil, o banco espanhol BBVA e a Telefônica.

Outro que já trocou a aridez de Brasília pelos ganhos do mercado privado foi Márcio Thomaz Bastos. Antes de aceitar o convite para chefiar o Ministério da Justiça, o advogado faturava cerca de R$ 250 mil mensais em seu escritório, vinte e cinco vezes mais do que no governo. “Quatro anos são o bastante”, disse ao deixar o governo. Em março deste ano, Bastos voltou a advogar e seu primeiro cliente de peso é o empresário Eike Batista, acusado pela Polícia Federal de se beneficiar na licitação da ferrovia do complexo minerador da Serra do Navio, no Amapá. Colegas de profissão estimam que, neste caso, o ex-ministro receberá não menos do que R$ 500 mil. Um contrato, portanto, que vale por dois anos de governo. E que também chega às suas mãos em função da experiência adquirida no trato com a Polícia Federal.

No entanto, nem sempre o retorno financeiro é a questão mais importante. De todos os ministros de Lula, nenhum é tão rico quanto Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central. Com uma fortuna pessoal estimada em R$ 200 milhões, o presidente do Banco Central não tem motivos para voltar à vida empresarial. Seus planos são outros. A política passou a percorrer a veia de Meirelles de tal forma que são inúmeras as especulações sobre os cargos a que gostaria de concorrer: prefeito, governador e até presidente. Ele pode escolher. E, no seu caso, o bolso não vai doer.