28/04/2004 - 7:00
O enredo sugere um desfecho
com cenas de terror corporativo. Poderosa multinacional em crise traz de volta um veterano aposentado, que concentra todo o poder em suas mãos, começa a virar o jogo em favor da empresa, mas morre antes de completar o trabalho, deixando os investidores a ver navios. A não ser pelo final infeliz, esta é a história do McDonald?s e de seu presidente Jim Cantalupo, fulminado na segunda-feira 19 por um ataque cardíaco em plena convenção para franqueados da rede em Orlando, Flórida.
Cantalupo tinha de fato interrompido sua aposentadoria em janeiro de 2003 para assumir o timão de um desgovernado McDonald?s. Tinha também unificado as funções de CEO e chairman da empresa e lançado um plano para reerguer a maior cadeia de fast-food do mundo, com 30 mil restaurantes em 119 países. Em um ano, ele revitalizou o McDonald?s, recolocou o grupo no azul e atingiu em fevereiro a maior taxa de crescimento nas vendas em 30 anos. Por tudo isso, a notícia de sua morte na manhã de segunda-feira pôs as ações da empresa em imediata queda livre. Tudo conforme o tal enredo de filme de terror ? até que o conselho de administração entrou em cena para dar uma aula de gestão. Em três horas, a companhia nomeou um novo CEO (o australiano Charlie Bell), garantiu a manutenção das políticas em curso e acalmou o mercado, estancando a queda das ações. Wall Street aplaudiu de pé, e analistas saudaram a ação rápida do McDonald?s como novo modelo para lidar com a morte inesperada de altos executivos. ?Foi uma lição para todos os conselhos de administração, seja nos Estados Unidos seja aqui no Brasil?, atesta Heloísa Bedicks, diretora-executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.
Toda empresa que se preza tem um plano de sucessão emergencial, mas a rápida nomeação definitiva de um presidente é mais uma exceção do que uma regra. O que há, quase sempre, é um plano provisório. Nomeia-se um executivo para um mandato tampão, enquanto a empresa escolhe um sucessor permanente. É uma estratégia válida, mas que deixa a companhia temporariamente engessada, sobretudo quando ela está em processo de reestruturação. No caso do McDonald?s, tudo indica que Charlie Bell ? uma jovem estrela da corporação, que aos 43 anos já vinha sendo preparada para assumir a presidência ? chega para ficar. Ou seja, não haverá outra surpresa depois da grande surpresa. ?É isso que a gente prega para as empresas familiares brasileiras?, observa Wagner Teixeira, sócio da Bernhoeft Consultoria Societária.
BELL, O SUCESSOR: Escolhido em
três horas
Do histórico desaparecimento de um avião com a família controladora do banco Bamerindus à queda de outra aeronave com toda a cúpula paulista do Grupo Mabel em 2001, o País registra há décadas um longo histórico de casos onde a falta de planejamento sucessório transforma tragédias particulares em dramas empresariais. Nos últimos anos, porém, algumas experiências bem-sucedidas na substituição de empresários que morreram inesperadamente sugerem que a questão da sucessão está sendo levada mais a sério no Brasil. ?Na TAM, o processo foi muito rápido e razoavelmente tranqüilo?, exemplifica Teixeira. Ok, não foram três horas e sim dois dias até que o nome do sucessor do comandante Amaro Rolim fosse anunciado, após sua morte em um acidente de helicóptero em julho de 2001. Nessas 48 horas, a especulação sobre o futuro da aerolinha correu solta, causando alguma intranqüilidade. Mas Rolim era o fundador e o dono da empresa e não um profissional contratado. Além disso, embora já estivesse desenhando uma estrutura moderna, com conselho de administração e direção executiva, o empresário não tinha indicado seu sucessor, o que obrigou a cúpula da empresa a tomar a decisão no calor do momento.
No caso da TAM, havia mais de um executivo em condições de assumir a presidência, mas freqüentemente não há um sucessor pronto. Foi o que se viu na Schincariol. Com o assassinato do empresário José Nelson Schincariol, em agosto passado, a cervejaria passou a ser dirigida por um colegiado de executivos. Somente há um mês, a companhia divulgou uma reestruturação que colocará Adriano Schincariol, filho de Nelson, no comando do grupo. É para evitar qualquer vazio de poder em situações como essa que, por exemplo, o empresário Abilio Diniz, dono do Pão de Açúcar, determinou, em 2002, a formação de um conselho administrativo forte, independente da figura do presidente executivo. Se a estrutura funcionar bem, a morte de Diniz ou de qualquer um dos principais executivos será absorvida sem solavancos. Como no McDonald?s.
Com o assassinato do empresário José Nelson Schincariol, em agosto passado, a cervejaria passou a ser dirigida por um colegiado de executivos. Somente há um mês, a companhia divulgou uma reestruturação que colocará Adriano Schincariol, filho de Nelson, no comando do grupo
O processo de substituição do Comandante Rolim, morto em um acidente de helicóptero em 2001, é considerado rápido e tranqüilo. Não havia plano sucessório pronto para o fundador e dono da TAM, mas em dois dias a companhia já tinha novo presidente, encerrando especulações
O histórico desaparecimento de um avião com
a família controladora do banco resultou na
transferência do comando para o então inexperiente
José Eduardo Andrade Vieira. Este é um dos casos
em que uma tragédia familiar se transformou
em drama empresarial por falta de planejamento