Fosse um livro da milionária série do bruxinho inglês, esta reportagem poderia ter o seguinte título: Harry Potter e a Chave do Segredo. O enredo: 10 milhões de pessoas em todo o planeta, prioritariamente crianças e adolescentes dos 9 aos 14 anos, em busca do conteúdo do sexto volume das aventuras do personagem criado por J.K Rowling. Agora mesmo, enquanto você lê esta reportagem, a maré de exemplares já começou a ser vendida em livrarias de todo o planeta e o tal sigilo, naturalmente, deixou de valer. À meia-noite de 16 de julho, previa-se o sinal verde para a venda de Harry Potter and the Half-Blood Prince (Harry Potter e o Príncipe Bastardo, numa tradução livre). Durante meses, até a sexta-feira, grande e inesquecível dia para os amantes da fábula, montou-se uma das mais espetaculares máquinas de proteção e segurança da história da indústria literária. Narrá-la com cuidado é um mergulho em um outro universo mágico, repleto de doses de marketing ? muitas vezes excessivas.

As cifras são recordistas. Comecemos pelo Brasil, para não ir muito longe. A livraria Cultura importou 5 mil exemplares dos Estados Unidos e da Inglaterra, edições com capas diferentes. Assinou um contrato draconiano de embargo e acomodou as 500 caixas de papelão à vista dos curiosos e sob a vigilância de agentes de segurança. Desembolsou 14515 galeões pelo lote. Peraí, quanto? Os galeões, moedas douradas, circulam no Castelo de Hogwarts e fazem parte da estrutura monetária elaborada pela autora ? há coerência no sistema financeiro das narrativas, há valores. É rígidez para Palocci nenhum pôr defeito, e por isso é possível convertê-la. Vamos lá: esse montante equivale a US$ 110 mil. ?É uma operação de estrita segurança?, diz Pedro Herz, dono da Cultura. ?Apenas a alfândega brasileira tinha o direito de abrir as embalagens, mas não o fez por saber que nossa encomenda era de livros?. Cada exemplar custará R$ 79.

Não há valores públicos a respeito do total gasto globalmente nessa primeira fase do lançamento, com a impressão em endereço desconhecido, contratação de advogados e esquema de proteção industrial, mas estima-se que os editores americanos e ingleses tenham posto na mesa algo como 6,45 milhões de galeões ? o equivalente a US$ 50 milhões, o mesmo valor aplicado na propaganda do primeiro filme da série. Parece muito, mas o detalhamento do que se passou antes dos cartapácios de 672 páginas chegarem às livrarias é empolgante, e por isso daria um romance de aventura. Na Inglaterra, a Editora Bloomsbury entrou com pedido prévio na justiça de modo a proibir qualquer pessoa de divulgar trechos do texto. Basearam-se na condenação de um motorista de caminhão que, em 2003, tentara negociar cópias surrupiadas com o tablóide The Sun e foi preso, acusado de roubo. Na cidade de Vancouver, no Canadá, semana passada, um supermercado vendeu 14 exemplares antes da hora. O caso foi parar na Suprema Corte. A editora canadense, desesperada, tratou de oferecer edições autografadas pela própria J.K. Rowling em troca de devolução da compra indevida, de modo a evitar o vasamento.

Nem mesmo o ilustrador da versão britânica foi autorizado a ler o novo Harry Potter. ?Apenas pediram para que eu desenhasse Harry e Dumbledore olhando de modo apreensivo para algo vindo na direção deles?, diz Jason Cockcroft. O pedido dá uma pista do que acontece no sexto volume da coleção ? e muito mais não se deve contar para não estragar o prazer da leitura.

O suspense intencional somado ao fascínio pelo personagem, responsável pela introdução de levas de crianças nas letras, movimentaram o mercado como nunca. Na cadeia americana de livrarias Barnes&Noble os pedidos antecipados chegaram a 750 mil exemplares ? o maior de todos os tempos para um livro que não chegara às prateleiras. Na Amazon, atingiu 200 mil. ?Esses números não deixam dúvida?, diz Steve Rigglo, diretor da Barnes. ?O mais recente Harry Potter será o mais vendido de todos?.

É também a aposta de Herz, da Cultura, que já tem assegurado a saída de metade das 5 mil unidades desembarcadas no Brasil, em pedidos feitos por telefone e internet. Há entusiasmo porque os outros cinco livros da série venderam 2 milhões de exemplares no Brasil. O barulho, atenção, está apenas começando ? crescerá com o lançamento da aventura em português, no mês de dezembro, e a estréia do quarto filme, Harry Potter e o Cálice de Fogo, em 19 de novembro, cuja produção, seguindo as métricas monetárias daquele mundo fantástico, sugou 16,7 milhões de galeões, o equivalente a US$ 130 milhões. É este, no final das contas, o custo para alimentar e esconder o segredo agora revelado.