Não há evento mais capitalista que as Olimpíadas. Foi sempre assim, apesar da áurea de amadorismo que o Barão Pierre de Coubertin tentou imprimir aos Jogos em 1896. Mesmo os campeões da antigüidade grega, depois da láurea com coroas de oliva, retornavam para casa e ficavam ricos diante de tantos prêmios. No século XIX, o conceito de esporte amador surgiu, a rigor, para benefício da aristocracia. Como apenas os mais ricos podiam competir sem se preocupar com dinheiro, somente a elite de chapéu coco disputava as provas.

A partir de então, o assunto foi cercado de hipocrisia. Não há atleta que tenha competido apenas pelo orgulho de vencer. Mas só muito recentemente, ressalte-se, o maior evento do mundo tornou-se uma máquina de fazer dinheiro. Foi em 1984, quando pela primeira vez na história, em Los Angeles, nasceram os patrocinadores oficiais, a chave do segredo da máquina hoje bilionária. Da mistura do marketing esportivo com os direitos de televisão e a venda de bilhetes, resultou um lucro de US$ 335 milhões. Até ali, era tudo prejuízo. ?As Olimpíadas de Los Angeles serviram de modelo para todos os outros Jogos a partir dali?, diz o jornalista americano David Wallechinsky, estudioso do assunto.

Deu-se o sinal vermelho de desastre das finanças olímpicas, nos Jogos de 1976, em Montreal. Por dois motivos o mundo não os esquece: pela arte de Nadia Comaneci, a primeira ginasta nota 10, e pela tragédia econômica. O saldo negativo chegou a US$ 1,2 bilhão. A dívida terminou de ser paga apenas em 2002. Em 1976, havia exagerados 628 patrocinadores, que juntos geraram apenas US$ 7 milhões (em Atenas, são seis marcas oficiais e um resultado de US$ 1,3 bilhão). Foi um vergonhoso balanço para o prefeito de Montreal, Jean Drapeau, que comemorara a conquista dos Jogos com uma provocação: ?É mais fácil um homem dar luz a um bebê que as Olimpíadas terem prejuízo?.

Depois do Canadá veio Moscou, em 1980, cuja planilha nunca foi revelada. Até que, em 1984, começaram de fato os Jogos da Era Moderna. E o mundo rendeu-se a um tremendo negócio que não pára de crescer ? e, mesmo quando endivida um país, termina com benefícios em infra-estrutura, como ocorreu com Barcelona depois de 1992 . Atenas gastará US$ 12 bilhões, mas tem um futuro claro como o branco do Mediterrâneo.

É um negócio tão bom que mesmo a economia planejada do comunismo rendeu-se a ele. As Olimpíadas de 2008 serão em Pequim, na China. Terão a força de uma nova revolução, o ápice do namoro da turma de Mao com as idéias liberais de Adam Smith em oposição às de Karl Marx. É simples: 2008 assistirá aos Jogos mais caros da história, com gastos que chegam a US$ 20 bilhões. ?É preciso investir para nos colocar ao lado das grandes cidades do mundo?, diz o vice-prefeito de Pequim e principal executivo do Comitê Organizador, Liu Jingmin. ?As Olimpíadas serão o ponto alto da série de mudanças econômicas e políticas pelas quais a China passou nos últimos vinte anos?. Eis a força econômica dos Jogos Olímpicos.