Depois do adiamento inicial, o presidente Lula finalmente desembarcou na China. Esteve na posse de Dilma Rousseff no Banco do Brics, falou sobre negociações internacionais em outra moeda que não seja o dólar e enalteceu a parceria que tem com o país asiático. Protocolo seguido por uma comitiva de mais de 30 parlamentares, sete ministros e outros técnicos e assessores. E se a viagem do petista será curta, deixamos aqui quatro coisas que a China fez e deu muito certo nos últimos anos (e outras duas que devemos desviar de todas as formas).

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Investimento em larga escala

Enquanto o Brasil e o mercado financeiro batem cabeça sobre déficit, superávit, regra de ouro, teto de gastos e outras métricas fiscais, há uma marginalização do entendimento do investimento público. Apesar de tratar-se de um gasto, é o investimento (e não apenas aquele usado para apagar incêndio) que colocou a China no século XXI antes do resto do ocidente. Para se ter uma ideia, segundo a OCDE, a China investe, anualmente, cerca de 8,8% do PIB nas últimas duas décadas. Muito acima da média de 1,6% do investimento brasileiro. Quase todo o recurso aplicado foi na cadeia produtiva, infraestrutura e fomento à pesquisa. Em 2000 o PIB chinês era de US$ 1,9 trilhão. Em 2020, US$ 15,7 trilhões e a perspectiva do JP Morgan é que bata US$ 27 trilhões em 2030.

Reindustrialização

A agilidade com que a China passou de uma produção basicamente agrária para uma potencial mundial na indústria é algo que será estudado por décadas. Os pesquisadores políticos Luís Felipe Lopes Milaré  e Antônio Carlos Diegues se debruçaram neste assunto para mapear como se deu esse processo e alguns fatores são determinantes. Além do dinheiro público, houve a criação de políticas públicas específicas para cada uma das áreas de conhecimento em que os chineses queriam ganhar notoriedade. Tecnologia móvel, militar, internet foram algumas, mas não todas. Também decidiram que queriam abastecer o resto do mundo com produtos de qualidade e tirar aquela pecha de itens de baixa durabilidade ou falsos construída no começo do século. Para isso, fomentou o desenvolvimento na pesquisa, em áreas como a as indústria têxtil, de autopeças e eletrônica, e assim elevou a eficiência das empresas e diminuiu drasticamente seus custos de operação.

Relevância internacional

Outra estratégia chinesa foi usar seus vizinhos asiáticos como protótipo do projeto global que queria desenvolver. Eles foram os primeiros a receber uma enxurrada de produtos chineses e o termômetro inicial de questões comerciais como usabilidade, durabilidade e eficiência dos produtos. Foi sob a gestão de Hu Jintao, presidente da China a partir de 2003, que outro projeto foi colocado em prática: aumentar a aproximação dos vizinhos para garantir que a dependência comercial não se sobreponha a qualquer tensão política. Deu certo com quase todos os países asiáticos, com exceção da Coreia do Norte e de Taiwan. Depois de uma década construindo essa relação, a China deixou de ser apenas um parceiro importante para seus vizinhos para ser o motor de toda a região e, além de abastecê-los, deu a eles a capacidade de se especializar em alguns setores, como fez a Coreia do Sul com eletrônicos. Com esse organismo consolidado, a China deixou de ser apenas um líder regional para virar uma superpotência global.

Planejamento de Estado (não de governo)

Tudo bem que os ciclos de presidentes na China são mais longos que no Brasil (em média 10 anos consecutivos), mas houve um entendimento geral dos presidentes que encabeçaram o País nos últimos 40 anos. Esse projeto de Estado, que nasce em no final dos anos 1980 com Yang Shangkun e é efetivamente modelado por Jiang Zemin a partir de 1993, e foi sustentado por Hu Jintao (de 2003 a 2013) e elevado à máxima potência por Xi Jinping, que foi reeleito para seu terceiro mandato de cinco anos. Obviamente a condução do Partido Comunista na China ajuda nessa “sinergia” entre os ideais de todos os líderes, mas também levanta para o ocidente a discussão sobre montar projetos de país de longo prazo e como isso beneficia todas as ideologias, campos políticos e desenvolvimento de uma nação.

O QUE NÃO REPETIR

Justiça social

Uma pesquisa da ONU colocou um alerta para o aprofundamento das desigualdades sociais na China. A renda per capita no país é de apenas US$ 6,6 mil por ano, bem mais baixa do que o índice japonês (US$ 32,4 mil), e do que o americano (US$ 46,4 mil). Segundo o órgão, só 26% da população chinesa tem condições de consumir além do básico e há ainda ao menos 18% dos que não possuem o mínimo para sobreviver. “Esses dados colocam em questão a forma como a China se desenvolveu olhando para o mundo, mas sem olhar para dentro”, disse o sociólogo Renan Mascarenhas, professor de ciências políticas da Universidade Federal Fluminense.  Outro problema atual é que cerca de 700 milhões de pessoas (das 1,3 bilhão residentes na China) gostariam de mudar para cidades mais prósperas. O resultado seria um êxodo nunca visto e um sobrecarregamento das cidades desenvolvidas. Mas, ao invés de desenvolver outras regiões, o governo chinês resolveu impor limites no trânsito de famílias. Além de controlar a natalidade e abafar qualquer informação que leve os chineses a terem maior entendimento e reconhecimento dos próprios problemas no país.

Desleixo ambiental

Se a China é a maior exportadora do mundo, possui a mais forte indústria e firma os maiores acordos comerciais, ela também está no topo de listas bem menos honrosas. O país é campeão mundial de liberação de mercúrio, a maior fonte de detritos marinhos; o pior perpetrador de pesca ilegal e o maior consumidor do tráfico de vida selvagem e produtos de madeira.  Também figura como o maior emissor de dióxido de carbono (CO2), relativa à produção energia, segundo dados do Bureau de Oceanos e Assuntos Internacionais Ambientais e Científicos (OES). Questionado sobre esses temas, o presidente Xi Jinping minimiza os impactos, apesar dos efeitos do aquecimento global serem sentidos em seu próprio país, com calores excessivos e invernos mais rigorosos em Pequim, por exemplo. Sobre esta vista grossa, a ONU reforçou que a “falta de comprometimento do país contraria toda a prática, pesquisa e desenvolvimento humano corroborado também por parte das empresas e países que fazem negócio com a China”, dizia  o relatório da Organização na Cop 27. Uma vergonha que não podemos reproduzir.