08/05/2002 - 7:00
A fotografia tem o tamanho do Brasil. Vista no detalhe, revela a espetacular reviravolta na economia ocorrida quando três forças poderosas se aliam ? a capacidade da indústria nacional, o desenvolvimento tecnológico e a exigência do consumidor. O resultado desse encontro pode ser visto através da Pesquisa Industrial Anual de Produto do IBGE, divulgada
na semana passada, com dados
coletados em 1999. Em comparação com o mesmo levantamento realizado vinte anos antes, revela a modernização da indústria brasileira e sua influência nos hábitos de consumo. Caso típico do setor automobilístico. Com a chegada de mais de 20 montadoras estrangeiras, a criação do conceito de carro popular de mil cilindradas e facilidades de acesso a financiamentos, o setor experimentou um aumento no volume de vendas que levou os carros a saltarem do 5o para o 1o lugar no ranking do IBGE com os 100 produtos industriais mais consumidos. Ou da cerveja, que igualmente experimentou processo de diversificação e sofisticação. Com vendas que somaram R$ 4,3 bilhões em 1999, o produto deixou a 41a posição em 1979 para alcançar a 4a posição duas décadas depois. ?A pesquisa prova que a melhora da oferta aumenta a demanda do produto?, diz o analista Marcos Gouvêa de Souza, consultor de empresas de varejo. ?Antes se acreditava que só o nível de renda do consumidor e preço do produto geravam demanda.?
A pesquisa do IBGE foi realizada em 16 mil das estimadas
132 mil indústrias brasileiras, responsáveis pela produção de
3,2 mil produtos e serviços industriais. A relação dos 100 mais vendidos representa 48,5% do total de vendas, que alcançaram um total de R$ 308 bilhões, e inclui volumes exportados. ?O trabalho mostra a produção brasileira avançando na direção de um consumidor mais bem informado e exigente, que responde rapidamente às novidades?, diz o chefe do Departamento de Indústria do IBGE, Silvio Sales, responsável pela pesquisa. ?A intenção é a de que ela sirva como ferramenta de exploração de oportunidades?. Entre os produtos melhor colocados no ranking de 1979, perderam importância no setor industrial e espaço no mercado tecidos de algodão, sintéticos, arroz beneficiado e café torrado. Assumiram postos entre os dez melhor colocados combustíveis, açúcar, nafta, medicamentos e fertilizantes.
Os produtos de alta tecnologia agregada são estrelas no levantamento do IBGE, presidido por Sérgio Besserman Viana. Os números sobre sua produção no Brasil atestam o que se vê pelas ruas, onde o celular há tempos faz parte do cotidiano de pessoas de todas as classes sociais, e nas fábricas, escritórios e casas, em que os computadores se multiplicam. Com vendas de R$ 1,2 bilhão em 1999, os celulares estrearam no ranking em 43o lugar, enquanto os computadores pessoais, responsáveis por vendas de R$ 750 milhões, ficaram em 74o lugar. Neste aspecto, o levantamento mostra que o tempo corre em compasso diferente da indústria, que vai se mostrando mais rápida do que ele. Só para lembrar, em 1979 os celulares e os computadores pessoais simplesmente não existiam por aqui, enquanto hoje diversos modelos já são considerados ultrapassados. A velocidade na instalação de indústrias e multiplicação da produção podem ser explicadas numa chave simples: acesso à informação. ?Para se ganhar dinheiro hoje é preciso estar conectado com o mundo, ser rápido?, diz Max Gonçalves, presidente da Fenasoft, a maior feira de informática da América Latina. ?Mobilidade não é mais desculpa para perda de tempo, o que explica o boom do setor de alta tecnologia.? Apenas na categoria pré-pagos, o Brasil tem hoje 17 milhões de celulares.
Os hábitos alimentares também mudaram. Bebe-se mais cerveja. A produção aumentou de 3 bilhões para 8 bilhões de litros entre 1979 e 1999. Porém, fuma-se menos, o consumo de carne vermelha diminuiu e lê-se mais. Com uma queda na produção de 136 bilhões de unidades em 1979 para 11 bilhões em 1999, os cigarros despencaram do 28o lugar no ranking para o 46o. A carne bovina que estava no 10o posto caiu para o 27o , mas os jornais que nem figuravam entre os cem mais de 1979 despontaram, vinte anos depois, na 31a posição entre os produtos feitos no Brasil.
Os esforços de exportação realizados pela indústria nacional refletem na pesquisa. É o que explica o incremento na produção de calçados de couro, de 80 milhões de pares para 132 milhões, o salto no ranking do minério de ferro, que estava em 62o lugar e pulou para a 14a posição, com vendas de 2,2 bilhões em 1999, e o avanço do suco de laranja, da 59a para a 17a posição, com 2,1 bilhões de litros produzidos segundo a última pesquisa. Pelo que se vê no levantamento do IBGE, a indústria brasileira, acompanhando as mudanças na cabeça dos consumidores daqui e de fora, está cumprindo seu papel. E muito bem, obrigado.