Com bloqueio do Estreito de Ormuz, Irã conseguiu mudar o equilíbrio de forças muito além do Golfo. Algumas nações também emergiram mais poderosas, enquanto outras perderam influência.O anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Irã, Israel e Estados Unidos sinaliza uma pausa na escalada da guerra, após 40 dias de ataques e retaliações intensos. Como sempre, os civis pagam o preço do conflito. Milhares foram mortos ou feridos, e muitos outros foram deslocados. Casas, infraestrutura e meios de subsistência foram destruídos — no Irã, em Israel e em toda a região.

Apesar do cessar-fogo com o Irã, Israel continuou sua campanha militar contra o Hezbollah, aliado de Teerã no Líbano. Apenas algumas horas após o anúncio da trégua, Israel desferiu seus ataques mais pesados contra o país vizinho desde que o conflito com a milícia xiita se intensificou, em março, deixando mais de 200 mortos.

Guerras não têm vencedores, mas remodelam a política global. Afetam alianças, mercados de energia e influência mundial. Analisar a guerra no Irã sob essa ótica mostra como o poder está mudando muito além do Oriente Médio.

Irã: regime sob pressão, mas ainda de pé

O Irã esteve no centro do conflito. Desde 28 de fevereiro, EUA e Israel bombardearam alvos militares e infraestrutura energética. Mais de 3,6 mil pessoas foram mortas no Irã, segundo o grupo de direitos humanos HRANA, com sede nos Estados Unidos. Esse número inclui o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e muitas outras figuras políticas e militares de alto escalão, mas também 165 pessoas em uma escola de meninas, a maioria crianças.

Apesar da perda de sua liderança, o núcleo do sistema político iraniano permanece intacto.

“Não há movimento em direção a uma mudança de regime”, observa Ian Bremmer, analista político americano e presidente da consultoria Eurasia Group. “Não há movimento para resgatar o povo iraniano, o que, pelo menos nos primeiros dias do conflito, o presidente Trump dizia ser um objetivo.”

O regime iraniano reagiu com uma medida de alto risco: bloqueou efetivamente o Estreito de Ormuz para o tráfego marítimo, permitindo o uso apenas a alguns países. O fechamento da hidrovia, por onde escoa um quinto do petróleo global, elevou os preços globais da commodity e aumentou a pressão sobre Washington e seus aliados.

A estratégia deu certo. Teerã garantiu um cessar-fogo sem admitir derrota. O governo pode apresentar a trégua como prova de que resistiu aos EUA e seu poderio militar. O presidente americano Donald Trump aceitou o plano de dez pontos do Irã como base para as negociações. O regime iraniano sobreviveu e ganhou tempo para tentar moldar a próxima fase em termos mais favoráveis.

EUA: ganhos militares, limites políticos

Após o cessar-fogo, o presidente Trump falou em “vitória total e completa”. Mas muitos analistas discordam.

“Eles alcançaram alguns objetivos”, afirma Bremmer. “Se você observar os danos causados às capacidades militares do Irã, às suas capacidades balísticas convencionais e navais, grande parte disso foi severamente degradada.”

Partes de seu programa nuclear também foram gravemente danificadas. Isso é importante para Washington, que afirma que impedir o Irã de adquirir armas nucleares era um objetivo central.

Mas os EUA também sofreram perdas. Ataques iranianos danificaram ou destruíram sistemas de radar e aeronaves avaliados em bilhões de dólares. E os ataques do Irã a países do Golfo — não apenas bases americanas, mas também infraestrutura essencial — abalou sua reputação como protetor dos aliados na região. Além disso, as relações com a Europa e a Otan foram tensionadas pelo fato de Washington ter iniciado a guerra sem consultar seus aliados.

O cessar-fogo interrompeu os ataques contra as forças americanas e, por ora, reduziu o risco de uma guerra regional mais ampla, uma prioridade máxima da Casa Branca. E a expectativa é de que a reabertura do Estreito de Ormuz alivie a pressão sobre os mercados de petróleo.

Washington voltará à mesa de negociações com o Irã, ao exato local onde estava no início da guerra. E não foi capaz de remodelar o comportamento do Irã da forma que desejava. Resta ver qual será o custo disso tudo para sua reputação internacional.

Israel: ganhos táticos, riscos de longo prazo

Israel enfraqueceu as capacidades militares do Irã. Demonstrou que pode atacar muito além de suas fronteiras e continua a contar com forte apoio dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, a guerra expôs vulnerabilidades. Mísseis iranianos colocaram as defesas aéreas de Israel sob tensão constante, e alguns conseguiram furá-las, matando mais de 30 pessoas. O país segue ameaçado pelo Irã e seus aliados regionais.

Fawaz Gerges, da London School of Economics, diz à DW que Israel pode sair “muito mais fraco” da guerra. Ele argumenta que o dano diplomático provavelmente será considerável, especialmente em sua vizinhança — países do Golfo agora tendem menos a aprofundar laços com Israel.

China: beneficiária de longo prazo

A China tende a se beneficiar no longo prazo. Os Estados Unidos deslocaram muitos ativos militares para o Oriente Médio para proteger o transporte marítimo próximo ao Estreito de Ormuz. Isso deixa menos recursos para o Indo-Pacífico, onde Washington e Pequim disputam influência.

“A China se beneficia não apenas porque os Estados Unidos estão menos focados no ambiente militar asiático, mas também porque são vistos como muito menos confiáveis por seus próprios aliados”, ressalta Bremmer. “E isso significa que a China, em comparação, é vista como um ator relativamente estável.”

Pequim pediu moderação durante todo o conflito e saudou o cessar-fogo. Apresentou-se ao mundo como um ator global responsável, ao mesmo tempo em que protegeu seus interesses econômicos.

A China compra mais de 80% das exportações de petróleo do Irã, muitas vezes com desconto. Mas recentemente estabeleceu grandes reservas de energia, o que lhe permite absorver choques de preços melhor do que muitos rivais.

Rússia: lucro com a disrupção

A guerra ajudou a Rússia de várias maneiras. Os picos nos preços da energia impulsionaram as receitas de Moscou em um momento em que seu orçamento estava sob pressão devido à guerra na Ucrânia. Sanções foram temporariamente flexibilizadas, à medida que países buscavam fontes alternativas de petróleo.

Embora os preços tenham caído desde o cessar-fogo, outro benefício permanece, com o desvio da atenção global sobre a guerra na Ucrânia.

Além disso, Bremmer observa que os Estados Unidos deslocaram grande parte de sua capacidade militar para o Golfo. “Isso significa que sistemas de armas de que os ucranianos precisam simplesmente não estarão disponíveis.”

Ainda assim, o Irã é um país amigo do Kremlin, um dos poucos que lhe restam na região, de modo que seu enfraquecimento representa uma perda para a Rússia.

Países do Golfo: entre perdas e ganhos

Ataques iranianos atingiram a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e outros países do Golfo. Instalações de energia avaliadas em bilhões de dólares foram danificadas, e sua sensação de segurança foi abalada.

Ainda assim, alguns países se beneficiaram. A Arábia Saudita contornou o Estreito de Ormuz e manteve grande parte de seu petróleo fluindo por meio do Oleoduto Leste-Oeste até o Mar Vermelho.

“O orçamento da Arábia Saudita parece, na verdade, muito promissor, porque eles estão exportando muita energia e obtendo um preço muito alto por ela”, diz Bremmer.

Outros ficaram mais expostos. Os Emirados Árabes Unidos dependem fortemente de trabalhadores estrangeiros e investidores. “90% dos mais de 10 milhões de habitantes dos EAU são expatriados”, afirma Bremmer. “E eles precisam sentir que este é um lugar seguro para eles.”

O conflito abalou a imagem dos Emirados como um refúgio seguro — um pilar fundamental de seu modelo econômico.

Europa: alto custo econômico e medo de novas consequências

Preços mais altos de energia atingiram famílias e a indústria na Europa, como em muitas outras partes do mundo. Disrupções no transporte marítimo afetaram o comércio, e as pressões inflacionárias aumentaram em um momento em que muitas economias europeias já estavam sob tensão.

A situação ampliou divisões dentro das alianças tradicionais. Governos europeus se recusaram a apoiar as operações militares da Casa Branca. Alguns também não cederam seu espaço aéreo para missões ofensivas. Trump reagiu com novas ameaças de retirar os EUA da Otan — um cenário que muitos europeus temem.

Paquistão: impulso diplomático

O Paquistão desempenhou um papel central na mediação do cessar-fogo e agora deve sediar novas negociações.

Para o primeiro-ministro Shehbaz Sharif, trata-se de um grande sucesso diplomático. O Paquistão mantém relações tanto com Washington quanto com Teerã e transmitiu mensagens discretamente entre eles por semanas.

O resultado fortaleceu o papel do Paquistão como mediador regional. Seu rival, a Índia, permaneceu à margem e foi duramente atingido pela alta dos preços da energia.