Duas cenas marcaram o cenário econômico
nos últimos dias. No dia 10, após a visita à Inglaterra, o presidente Lula passou por Recife e teve um encontro com empresários liderados por Armando Monteiro, presidente da Confederação Nacional da Indústria. Ao mesmo tempo, em São Paulo, uma comitiva formada por Bernard Appy, secretário de Política Econômica da Fazenda, Alexandre Schwartsman, diretor de Assuntos Externos do Banco Central e Mario Mugnaini, secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior desembarcava na Fiesp. Em ambos os locais, o governo tentou convencer os empresários da necessidade de reduzir as alíquotas de importação. Não conseguiu. ?A exportação já está difícil com a sobrevalorização do câmbio. Agora o governo quer colocar o mercado em risco??, reagiu Roberto Giannetti da Fonseca, diretor da Fiesp. Em Recife, o presidente ouviu dos empresários que a indústria desconfia dessa nova abertura. Respondeu ?que o efeito da medida pode ser positivo para o câmbio?, pois poderia aumentar a saída de dólares. Tratou, porém, de assegurar que o assunto ainda estava ?sendo analisado?. A verdade parece ser diferente. Apesar da grita empresarial, no Ministério da Fazenda a idéia é dada como certa. Seu principal articulador, Joaquim Levy, secretário do Tesouro, sustenta que a abertura traria dois benefícios diretos. Em primeiro lugar, a desvalorização do real, em razão da saída maior da moeda americana com o aumento das importações. Poderia, além disso, acelerar a queda dos juros, por significar maior controle da inflação via importações. Esta, porém, não é uma posição hegemônica ? nem dentro e nem fora do governo.

?Uma ampliação da abertura comercial precisa ser precedida de diversas outras medidas, para dar às empresas brasileiras condições de competir em pé de igualdade com os seus concorrentes internacionais?, resumiu, durante o encontro da Fiesp, Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas e do Iedi. As entidades empresariais sustentam que o governo só deve pensar em aumentar o grau de abertura comercial depois que a queda dos juros e a desvalorização do real tornarem a indústria mais competitiva. Enquanto a tropa de choque do governo acena com a possibilidade de elevar importações e alterar a situação cambial, os industriais respondem que as importações já estão crescendo devido à valorização do real. O câmbio sobrevalorizado, segundo eles, já tem o efeito de uma redução substancial de tarifas.

A nova tese de abertura comercial do governo é a mesma que a Fazenda defendeu no final do ano passado, quando fez vazar um estudo no qual propunha a redução da tarifa máxima de importação de 35% para 10,5%. Tal como agora, a idéia foi recebida com críticas, mas não foi embora. ?O Brasil ainda tem uma das economias mais fechadas do mundo?, afirma o economista Sergio Werlang, diretor do Itaú. Criador do sistema de metas de inflação, ele é também o mentor intelectual dessa nova rodada de abertura dos portos. ?Sem mudanças como essa, o País continuará nanico frente ao crescimento de outros emergentes?, garante. O que há de novo nessa história é que o presidente da República parece ter abraçado a tese de Werlang e da Fazenda – para desespero dos industriais e de um bom número de economistas. ?Essa abertura é absurda. Não vai mexer um milímetro no câmbio?, sustenta Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp. Ele argumenta que enquanto o comércio exterior movimentou US$ 30 bilhões no primeiro bimestre, houve, no mesmo período, uma movimentação de US$ 82 bilhões no mercado brasileiro de derivativos, atraídos pelo juros mais altos do mundo. ?É esse mercado que dita 70% da cotação do real, não os dólares das exportações?, sustenta o professor. Se for assim, a abertura pode resultar inútil do ponto de vista do câmbio. Claro, sempre há o (bom) argumento de que a liberalização do comércio estimula a economia, mas há que estabelecer prioridades. Nos últimos meses, devido à valorização do real, o Brasil passou de plataforma de exportação industrial a país exportador de fábricas. Logo, se não for para influenciar o câmbio na direção correta, é de se perguntar a quem interessa reduzir as tarifas de importação. Pode não interessar ao País.