O relógio marcava 18 horas quando Marcelo Magalhães chegou à Avenida Paulista, em São Paulo. O paulistano do Grajaú, bairro da Zona Sul de São Paulo, gastou cerca de uma hora e meia no trajeto até a manifestação. Desempregado há dois anos e vivendo de bicos em manutenção de casas, Magalhães tentou melhorar as suas chances no mercado de trabalho fazendo um curso de radiologia pelo PRONATEC, uma das principais bandeiras da campanha de Dilma Rousseff, em 2014. Não deu certo. Ele, aos 32 anos, continua sem um salário fixo e não enxerga um horizonte no curto prazo. “Sei que nenhum dos candidatos faria algo de muito diferente”, diz Magalhães. “Mas viajei até aqui para tentar fazer com que os próximos políticos tenham medo de serem corruptos.”

Segundo ele, o estopim para a saída do sofá foi a posse do ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil, na quinta-feira 17. Mesmo tendo votado no petista anteriormente, Magalhães não engoliu as últimas denúncias contra Lula. Antes disso, ele só havia comparecido nas manifestações de junho de 2013. “Levei a volta do Lula como uma palhaçada com o povo”, afirma. 

Além dele, outros manifestantes foram protestar pela primeira vez nesta semana. O motivo é o mesmo: as denúncias e acusações envolvendo o ex-presidente. Maria Aparecida de Oliveira, de 49 anos e moradora do Campo Limpo, também no extremo Sul de São Paulo, emendou uma consulta em um hospital público da região para fazer parte do ato. “Eu estou doente, mas queria estar aqui externando minha indignação”, diz Maria. A vendedora de produtos cosméticos faz questão de afirmar que atualmente ganha 30% a menos do que recebia no ano passado. “Senti que era a hora de eu protestar e pedir a saída de Dilma”, diz.

É o mesmo caso da agente de seguros Maria Clara Cipulo, de 35 anos. Antiga funcionária de um grande banco, Maria Clara perdeu seu emprego no início do ano passado. Não encontrou mais nada na área. A saída, então, foi tentar um negócio próprio. Os ganhos até agora, contudo, não somam nem 10% do seu antigo ordenado. “Não vejo como meu negócio vai melhorar com a Dilma no poder”, diz ela. 

Por conta do otimismo na retomada da economia com um possível impeachment ou renúncia da presidente, Maria Clara também levou a amiga Tânia Salazar para a Avenida Paulista. “Eu tenho medo do que vai acontecer quando o Temer assumir”, diz Tânia. “Mas a Dilma não tem mais credibilidade e nem controle do País, temos que mudar.”