26/02/2025 - 11:27
Cantor americano conquistou Belchior, Raul Seixas, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Humberto Gessinger e Ana Canãs, entre outros nomes ilustres da música brasileira. Já o Brasil e a bossa nova encantaram o Nobel de Literatura.Foi Gilberto Gil quem apresentou Belchior (1946-2017) a Bob Dylan. O encontro aconteceu na noite de 18 de janeiro de 1990 no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Em um dos camarins do Hollywood Rock, Gil apresentou Belchior como “Bob Dylan brasileiro”. Em tom de brincadeira, Dylan retribuiu a gentileza: “É mais provável que eu seja você na América”. E perguntou: “Queria ouvir seu álbum. Trouxe algum?”.
Fã assumido de Bob Dylan, o cantor cearense citou seu ídolo, direta ou indiretamente, nas letras de quatro canções: Velha Roupa Colorida (1976), Corpos Terrestres (1978), Onde Jazz Meu Coração (1984) e Lira dos Vinte Anos (1988). Outro admirador confesso é Raul Seixas (1945-1989). O roqueiro baiano reproduziu seu canto falado em Ouro de Tolo (1973), admitiu já ter imitado Mr. Bob Dylan em Eu Também Vou Reclamar (1976) e arriscou um trecho de Mr. Tambourine Man (1965) no álbum Raul Rock Seixas (1977).
“Dylan os influenciou de maneira distinta: em Belchior, a marca está na poética, no parentesco lírico, na forma de trabalhar versos e métrica. Em Raul, a proximidade é na postura, na afirmação do individualismo e na independência artística”, analisa o jornalista Jotabê Medeiros, autor das biografias de Belchior Apenas Um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017) e de Raul Seixas Não Diga Que a Canção Está Perdida (2019).
São muitos os brasileiros que prestaram homenagem a Dylan, nome artístico de Robert Allen Zimmerman, em suas canções. Gil foi um deles. Em 1989, gravou De Bob Dylan a Bob Marley – Um Samba-Provocação, no álbum O Eterno Deus Mu Dança. Um dos principais nomes do Tropicalismo ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso foi um dos primeiros compositores brasileiros a fazer uma versão de uma música do artista. Na década de 1970, ele convidou o cantor e compositor carioca Péricles Cavalcanti para uma releitura de It’s All Over Now, Baby Blue (1965).
“Caetano ia dirigir um show da Bethânia e pensou nesta música para o repertório”, recorda Cavalcanti. “Como Bethânia não se entusiasmou, Gal quis gravá-la.” Negro Amor foi gravada por Gal Costa em Caras & Bocas (1977) e regravada por Engenheiros do Hawaii (1999), Jorge Drexler (2020) e Filipe Catto (2023).
De Dylan, Caetano gravou Don’t Think Twice, It’s All Right (1963) para o documentário O Cinema Falado (1986), além de Jokerman (1983) e It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding) (1965) para os álbuns Circuladô Vivo (1992) e A Foreign Sound (2004). “Achei curiosa a voz fanha e o jeito sujo de tocar violão e gaita”, recorda no livro Verdade Tropical (1997) e aponta Bringing It All Back Home (1965) como o seu favorito. “É o disco de Dylan que mais me emociona.”
Bringing It All Back Home é, por coincidência, o favorito de Humberto Gessinger também. “Mr. Tambourine Man, Gates of Eden, It’s Alright, Ma, It’s All Over Now, Baby Blue… Pode haver um lado B melhor do que este?”, indaga o ex-vocalista do Engenheiros do Hawaii que, no álbum Tchau Radar (1999), gravou Negro Amor: “O que mais admiro no Dylan é a forma como ele levou sua carreira: se desconstruindo e reconstruindo várias vezes.”
Se Bringing It All Back Home é o favorito de Gessinger, Desire (1976) é o predileto de Vitor Ramil. Para o show de lançamento de A Paixão de V Segundo Ele Próprio (1984), transformou Joey em Joquim. Enquanto a original traça o perfil de Joseph Gallo (1929-1972), um mafioso de Nova York, sua versão presta tributo a Joaquim Fonseca (1909-1968), um aviador de Pelotas.
“Ele construiu um avião, mas não conseguiu autorização para erguer o que seria a primeira fábrica de aviões do Brasil”, relata. De lá para cá, compôs mais quatro: Só Você Manda em Você (2000), Um Dia Você Vai Servir Alguém (2000), Ana (2017) e Balada de Um Homem de Bem (2023), releituras de You’re A Big Girl Now (1975), Gotta Serve Somebody (1979), Sara (1976) e Ballad of a Thin Man (1965), respectivamente.
O dia em que Bob Dylan conheceu Jackson do Pandeiro
Nenhum outro brasileiro, porém, cantou tanta versão de Dylan quanto Zé Ramalho: 14. Dessas, 12 estão no álbum Tá Tudo Mudando (2008). O cantor paraibano já tinha gravado Frevoador (1992) e Batendo na Porta do Céu (1997), livres adaptações de Hurricane (1976) e Knockin’ on Heaven’s Door (1973). Uma das versões cantadas por Zé foi composta por Bráulio Tavares. Na letra de Mr. do Pandeiro, o poeta e tradutor paraibano imagina um encontro fictício entre Dylan e Jackson do Pandeiro (1919-1982) na Feira de São Cristóvão, famoso reduto da cultura nordestina no Rio de Janeiro, em 1964.
“A versão de uma música não tem por que ser uma simples reconstituição, ao pé da letra, dos versos originais. Eu a vejo como um prolongamento da letra original, falando do mesmo tema, com linguagem semelhante, e fiel ao sentimento do autor”, explica Bráulio, que gravou sua versão de Mr. do Pandeiro no álbum Voz, Violão e Verso (2001). “Dylan marcou muito as gerações nascidas nas décadas de 1940 e 1950. É um impacto difícil de descrever. Abriu caminho para quem veio depois. Somos todos devedores dele”, reverencia.
Naquele mesmo ano, Zé Geraldo também gravou uma versão de Mr. Tambourine Man no álbum Catadô de Bromélias (2008). “Até hoje, não me esqueço do dia em que ouvi Dylan pela primeira vez numa rádio AM. Seu legado atravessa o tempo”, afirma o cantor e compositor mineiro que, no LP Estradas (1980), compôs, com direito a solo de gaita, Como Diria Dylan e, no álbum No Lugar Onde Nasci (2024), Maluco, Rei e Poeta.
Uma mesma canção pode inspirar diferentes versões. Trinta anos antes de Zé Ramalho entoar O Vento Vai Responder, Diana Pequeno já tinha gravado, em seu LP de estreia, Blowin’ in the Wind (1963), um dos clássicos do trovador de Minnesota. “Sua música é, ao mesmo tempo, minimalista e grandiosa”, descreve a cantora baiana. “Quando fui contratada pela RCA-Victor, nada mais natural do que selecionar uma música humanista para o repertório: Blowin’ in the Wind era símbolo tanto da nossa indignação quanto da nossa esperança.”
“Dylan explodiu a cabeça de muita gente”
Quase trinta anos depois, a história se repetiu: quando foi convidada pela Sony Music para gravar seu CD de estreia, Amor e Caos (2007), Ana Canãs selecionou Rainy Day Women #12 & 35 (1966), do álbum Blonde on Blonde. “Tinha acabado de assistir ao documentário Don’t Look Back e estava totalmente inebriada”, recorda a cantora e compositora paulista. “Naquela época, ainda cantava na noite, não pensava em compor. Algo ali despertou uma faísca: comprei um violão por R$ 80 e aprendi os primeiros acordes. Dylan pode não ter inventado a roda – afinal, ele bebeu muito da fonte de Woody Guthrie (1912-1967) –, mas explodiu a cabeça de muita gente.”
Até quem não é lá muito fã, acaba se rendendo. Raimundo Fagner admite que só gravou Romance no Deserto (1987) por sugestão do compositor Fausto Nilo. “Sempre fui mais ligado nos Beatles”, confessa o cantor e compositor cearense. Não se arrepende. Gostou tanto que a versão acabou batizando o álbum. Desde então, já cantou a versão de Romance in Durango (1976) ao lado de Amado Batista (1996), Zé Ramalho (2014) e Gusttavo Lima (2019). “O artista é genial quando sua música faz sucesso com todos os públicos”, teoriza.
Ao contrário de Fagner, Marcelo Nova é fã de carteirinha – daqueles que não perdem um show do ídolo. No dia 7 de abril de 1998, o vocalista do Camisa de Vênus pegou o primeiro avião para Porto Alegre só para assistir ao show no Bar Opinião. “Fiquei a menos de dois metros do palco”, conta. No dia seguinte, ainda tomou café da manhã no restaurante do hotel com Tony Garnier, o contrabaixista de Dylan.
“Estava tomando banho quando, aos 14 anos, ouvi Like a Rolling Stone (1965) pela primeira vez. Me arrebatou”, descreve Nova. “Mal acabei de me enxugar e fui correndo comprar o compacto.” No álbum Tijolo na Vidraça (2001), gravou Ainda Não Está Escuro, versão de Not Dark Yet (1997), e One More Cup of Coffee (1976). “Por nostalgia, os fãs ficam restritos às canções dos anos 1960. É uma pena. Oh Mercy (1989), Time Out of Mind (1997) e Modern Times (2006) são únicas.”
De gorro num calor de 34 graus
O amor da MPB por Bob Dylan, ao que parece, é recíproco. Em 2004, o futuro Nobel de Literatura citou João Gilberto (1931-2019), Roberto Menescal e Carlos Lyra (1933-2023) no livro Crônicas – Volume Um (Planeta). “Estavam libertando-se do samba infestado de percussão e criando uma nova forma de música brasileira com modulações melódicas”, escreveu. “Eles a chamavam de bossa nova.”
Cinco anos depois, dedicou uma edição inteira do seu programa de rádio, Theme Time Radio Hour, ao Brasil. Na ocasião, tocou Aquarela do Brasil, na voz de Elis Regina (1945-1982). “Existe uma parte na América do Sul onde não se fala espanhol. Fala-se português. É um país adorável, com 184 milhões de habitantes. Esse país ocupa quase metade do continente. Acredito que seja maior do que os Estados Unidos. Seu lema é Ordem e Progresso. É onde você encontra São Paulo e Rio de Janeiro, dois dos lugares com as melhores festas que conheço. Estou falando do Brasil! “, declarou ao microfone.
Mas nem sempre foi assim. Em 1984, declinou do convite do empresário Roberto Medina para tocar na primeira edição do Rock in Rio, em 1985. “O empresário de Bob Dylan não chegou sequer a receber Oscar Ornstein, que tinha viajado horas até chegar ao norte da França, onde o artista estava se apresentando”, entrega o jornalista Luiz Felipe Carneiro, autor de Rock in Rio – A História (2022).
Entre 1990 e 2012, tentou compensar: fez 19 shows em cinco cidades: Rio, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília. Das cinco vezes em que se apresentou no país, cantou 317 músicas – as mais tocadas foram Highway 61 Revisited (15 vezes), All Along the Watchtower (14) e Ballad of a Thin Man (12).
“Em Copacabana, Dylan gostava de sair do hotel, com casaco de couro, gorro de lã e óculos escuros, para fazer caminhadas anônimas. Tentava passar despercebido, mas nem sempre conseguia”, diverte-se o jornalista e produtor do podcast Dylanesco, Pedro Couto.
O filme que retrata a vida do cantor americano Um Completo Desconhecido estreia nesta quinta-feira (27/02) no Brasil, país onde Bob Dylan não tem nada de desconhecido. A obra, inspirada nos primeiros anos de sua carreira, foi indicada em oito categorias ao Oscar, entre elas Melhor Filme e Melhor Ator para Timothée Chalamet, que interpreta o astro.