As regras ditavam um debate sobre a economia doméstica, o que não impediu, por motivos óbvios do imperialismo, que a pauta econômica do mundo inteiro fosse colocada à mesa para o jogo de pressões e provocações entre os candidatos George Bush e John Kerry na noite da quarta-feira 13. No duelo final, à direita do vídeo, Bush considerou que as tropas americanas no Iraque são um presente dos Estados Unidos em benefício da liberdade no país. Era o protótipo do belicista em ação. Kerry, à esquerda, insistiu que não vai admitir que trabalhadores americanos subsidiem a criação de empregos noutros países do mundo. Ali estava o protecionista em pessoa. Ao cabo de uma hora e meia de ataques e defesas no auditório da blindada Universidade do Arizona, na cidade de Tempe, Kerry bateu mais e Bush ficou na defesa, mas nenhum deles caiu. ?Bush não é mais o favorito às eleições?, avaliou o professor Larry Sabato, da Universidade da Virgínia. ?Mas Kerry ainda não conseguiu tomar essa bandeira para si próprio?. Na prática mesmo, esse debate dos dois já bem conhecidos candidatos ao governo da maior potência do mundo serve apenas e tão-somente para repisar uma certeza ao resto do planeta: os EUA, em qualquer resultado das urnas, continuarão tratando o mundo como seu quintal.

No front interno, as questões econômicas seguem um roteiro não muito diferente do de outros países, terceiro- mundistas ou não. A redução de 1,6 milhão de empregos formais na economia americana se mostrou um prato cheio para o candidato de oposição. ?Este é o primeiro presidente em 72 anos que termina seu mandato com menos empregos do que quando assumiu?, afirmou Kerry não uma, mas duas vezes durante o debate. ?Nos últimos seis meses do governo democrata as bolsas estavam caindo, apontando a recessão. Os ataques de 11 de setembro nos fizeram perder 1 trilhão de dólares na economia, mas este ano a recuperação começou?, defendeu-se Bush. Subtração de empregos e desaquecimento da economia estão na ordem do dia até mesmo porque há uma concordância estratégica entre as duas campanhas. Segundo esse ponto comum, a eleição será decidida pelos votos dos colégios eleitorais dos Estados de Ohio, Pensilvânia e Michigan. Nestes Estados se situa o tradicional cordão industrial americano, com companhias siderúrgicas, calçadistas, têxteis e manufatureiras. Donos de mais de 60 votos no colégio eleitoral, calcula-se que nos três primeiros Estados houve uma redução total de cerca de 500 mil postos de trabalho durante a gestão de Bush. E advinhe por que: os Estados Unidos alegam que os estrangeiros tomaram esses espaços.

A Flórida e seus 27 votos no colégio eleitoral são outro ponto vital. O Estado abriga a maior colônia de língua espanhola dos EUA. Tanto Bush quanto Kerry se engalfinharam durante o debate na apresentação de propostas para os imigrantes. ?Precisamos começar a tomar medidas para dar cidadania aos trabalhadores estrangeiros e tirá-los das sombras?, disse Bush. Ele chegou a esboçar a idéia de criar um cartão de cidadania provisório, que serviria para o acesso ao país para trabalhadores estrangeiros em regime de emprego temporário. Kerry optou por ser conservador. ?Quatro mil pessoas passam ilegalmente, todos os dias, por nossas fronteiras. É claro que há nelas um problema de segurança.?

A maior ênfase de Kerry foi dedicada à proteção da economia americana. ?Hoje, uma empresa americana que queira se instalar em outro país tem mais vantagens do que se optasse por ficar aqui dentro?, afirmou. Sinalizou, assim, para uma postura bem mais protecionista da economia americana, caso vença. Bush não respondeu dire-
tamente à acusação de esvaziar a economia americana. Nos momentos mais difíceis, parecendo acuado, preferiu gags do tipo ?ufa!?, na tentativa de ironizar o adversário. ?Um plano de governo não é uma sucessão de queixas ou expor idéias que não têm como ser pagas?, afirmou o presidente. ?No meu governo, você está com mais dinheiro no bolso para fazer o que quiser?, prosseguiu, olhando fixamente a câmera à sua frente. ?O senador Kerry votou 96 vezes por aumentos de impostos?, arrematou.

O déficit econômico dos EUA também entrou na dança. ?Deixamos o governo com um superávit de US$ 5,2 bilhões, mas o déficit hoje é tão profundo quanto se pode enxergar.? Outra vez Bush não abordou o assunto diretamente. ?Há uma corrente principal na política americana, e você está bem na margem esquerda?, devolveu Bush, tentando incutir no eleitorado o receio por mais impostos com um esquerdista na presidência. Ficou claro no terceiro e último debate até as eleições de 2 de novembro que Bush ficou na defensiva em relação a Kerry, mas nada está definido.