22/10/2008 - 8:00
HÁ QUEM VEJA O BRAdesco Banco de Investimentos (BBI) há anos-luz de distância de UBS Pactual, Credit Suisse, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Itaú BBA, os líderes do mercado de capitais brasileiro. O que mais incomodaria, no entanto, é o banco das famílias Setubal e Villela estar à frente da instituição comandada por Márcio Cypriano. Se depender deste último, a distância que separa os dois maiores bancos privados brasileiros nessa área deve diminuir. O Bradesco está aproveitando a crise que devasta fortalezas financeiras pelo mundo para buscar oportunidades. Aproveitou o primeiro semestre turbulento e abocanhou a Ágora, a maior corretora independente e dona de uma importante carteira de investidores individuais, por R$ 830 milhões. O período também foi oportuno para reestruturar as forças após a saída do diretor-geral, Bernardo Parnes, e para fortalecer a área de renda variável com uma equipe de analistas respeitados pelos grandes investidores internacionais.
Com ou sem crise, o BBI quer estar pronto para ser grande.
A disputa entre Bradesco e Itaú nessa área corre no sentido inverso à que ocorreu no crédito popular. Na luta pela baixa renda, o banco da Cidade de Deus saiu na frente e comprou a tradicional Finasa. Já o Itaú começou do zero, criando a Taií, que ainda está em busca do seu ponto de equilíbrio. Na área de investimentos, o Itaú adquiriu o BBA de Fernão Bracher e Beltran Martinez em 2002 e levou uma estrutura pronta e agressiva para disputar as melhores operações quando o mercado de capitais estourou, em 2006. Foi só então que o maior concorrente agiu, montando, dentro de casa, o BBI. Perdeu o timing. “Os IPOs estavam parados. Havia uma luta para as empresas não fecharem o capital. O mercado andou mais rápido do que esperávamos”, admite José Luiz Acar Pedro, vice-presidente do Bradesco e novo responsável pela operação de investimentos. Em maio passado, Parnes saiu e tornou-se presidente do Deutsche Bank no Brasil. Deixou uma equipe de primeiro nível e, por enquanto, não será substituído por outro executivo. “Sempre tivemos o pensamento de montar uma estrutura para o longo prazo, não para um ou outro ano melhor”, diz Acar Pedro.
Os cerca de 500 profissionais do banco são comandados por três executivos subordinados a ele. A renda fixa está sob os cuidados de Denise Pavarina de Moura. A tesouraria fica com Patrick Gontier e a renda variável, com Luiz Galvão, que veio da Rio Verde Investimentos. “Estamos prontos para ocupar mais espaço nesse momento em que todos os bancos de investimento vão se reorganizar”, assegura Denise. No ano passado, as operações de renda fixa e variável totalizaram R$ 25,4 bilhões, o que representa 18% do total das emissões de ações, certificados de depósito de ações, debêntures e notas promissórias registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No primeiro semestre deste ano, o BBI foi o terceiro maior no ranking de originação e distribuição de renda fixa da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Liderou as emissões de R$ 500 milhões de debêntures da Usiminas e de R$ 1,2 bilhão em notas promissórias da Ultrapar.
Nas fusões e aquisições, assessorou a Bovespa na fusão com a BM&F e a American Banknote na compra da Interprint. Na renda variável, foi coordenador contratado do IPO (emissão inicial de ações) de US$ 19,7 bilhões da Visa, nos Estados Unidos, e das ofertas da Gerdau (R$ 2,9 bilhões) e da Metalúrgica Gerdau (R$ 1,5 bilhão). Também assessorou a Petrobras na oferta de R$ 566 milhões pela Suzano Petroquímica. Os resultados na última linha do balanço ainda são modestos diante do banco como um todo, mas têm crescido. No primeiro semestre, o lucro líquido foi de R$ 82 milhões, 26% maior que o de 2007.
Dentro da preparação do BBI, o mapa-múndi está aberto sobre a mesa de Acar Pedro. Os bancos de investimento internacionais passam por um momento delicado. Bear Stearns, Lehman Brothers e Merrill Lynch sucumbiram lá fora. Assim como o Itaú BBA, o BBI quer ocupar espaço no Exterior. Até o final do ano, 30 corretoras devem ser abertas em países da Ásia e do Oriente Médio. “Faz sentido abrir escritórios em mercados emergentes como Dubai e Hong Kong”, conta Galvão. Será que vai dar certo? “É uma oportunidade para Bradesco e Itaú. Mas é preciso ponderar que eles não são globalizados e não estão preparados para atuar no Exterior”, avalia Alberto Borges Matias, da ABM Consulting. A julgar pelos últimos acontecimentos, ainda bem