O bom humor do mercado está mesmo de volta, depois de dois meses de turbulência? Ou os focos de incerteza, como a tensão no Oriente Médio e a aproximação das eleições, ainda mantêm o cenário inóspito para emissões de ações e outras ousadias? Três eventos na Bolsa de Valores de São Paulo, distribuídos ao longo da próxima semana, ajudarão a responder essas perguntas. As aberturas de capital da mineradora MMX e da consultoria imobiliária Abyara, marcadas respectivamente para segunda-feira 24 e sexta-feira 28, além de uma nova emissão de ações da Cesp, no valor de R$ 2,8 bilhões, prometem reabrir a temporada de caça ao investidor. Até o final da semana passada, porém, persistiam as dúvidas sobre a viabilidade dessas captações. A própria Bovespa está preparada para divulgar as cerimônias de entrada de novos papéis no pregão apenas 24 horas antes de cada operação. Até lá, os bancos de investimento contratados para ofertar as ações estarão tomando a temperatura do mercado e checando a demanda pelos papéis. Caberá a eles dar a ordem para as decolagens ou abortar os lançamentos.

Se confirmar sua estréia no pregão nesta segunda-feira, a mineradora do empresário Eike Batista encerrará o jejum de emissões iniciais de ações (IPOs no jargão financeiro) que começou em meados de maio, junto com a debandada de investidores globais dos mercados emergentes. De lá para cá, o Ibovespa sofreu uma queda de quase 10 mil pontos. A partir daí, o caminho estará aberto para uma fila de lançamentos represados pela recente turbulência. Com a recente depreciação da bolsa, três empresas cancelaram suas emissões ? Multiplan Empreendimentos Imobiliários, Endesa Brasil e G&T de Energia Elétrica. Em outros casos, houve adiamentos. Hoje, 10 empresas estão na lista da Comissão de Valores Imobiliários para análise de ofertas ao mercado, oito delas com pedido de abertura de capital. Caso optem pelo adiamento das operações, MMX, Abyara e Cesp estarão sinalizando a seus pares que ainda é cedo para mostrar a cara. E o mercado estará virtualmente fechado a IPOs pelo menos até setembro, depois das férias no Hemisfério Norte.

A maioria dos analistas de mercado ouvidos pela DINHEIRO acredita que desta vez não haverá desistências. ?Os bancos de investimento não seriam tolos de levar uma emissão adiante até este ponto se não sentissem a receptividade dos investidores?, resume um executivo do ramo, que pede para não ser identificado por conta do período de silêncio imposto pela CVM aos profissionais envolvidos nos lançamentos. Impedido pelo mesmo motivo de falar sobre os IPOs, José Luis Acar Pedro, vice-presidente do Bradesco, lembra apenas que a excepcional alta de 4,71% da Bovespa na quarta-feira 19 deu novo ânimo ao mercado. A quase euforia nas bolsas é global e foi despertada por um discurso do presidente do Fed, Ben Bernanke, indicando o fim do ciclo de alta dos juros americanos. Acar Pedro observa que a retomada do fluxo de recursos estrangeiros será determinante para o sucesso das próximas emissões e se mostra otimista. ?A tendência é de que eles voltem, até porque os fundamentos das empresas brasileiras continuam bons?, justifica.

Mesmo se for assim, o perfil das emissões programadas para este segundo semestre será diferente do observado durante a onda de IPOs milionários iniciada pela Natura, em maio de 2004. Como os investidores estrangeiros ? responsáveis pela absorção de cerca de 70% das novas ações lançadas na bolsa ? estão mais arredios, a tendência é que a demanda agora seja menos inflada. E os preços praticados na estréia, conseqüentemente, mais realistas. Além disso, as ofertas estão sendo destinadas, prioritariamente, a investidores institucionais (como fundos de pensão) e qualificados, ou seja, com aplicações superiores a R$ 300 mil. A Cesp, por exemplo, reservou apenas 10% de sua oferta ao varejo e só aceita encomendas entre mil e 300 mil reais. A caça ao investidor não é mais com espingarda de chumbinho.

ABERTURAS DE CAPITAL

GP INVESTIMENTOS
Esta já aconteceu. Grupo captou R$ 700 milhões na semana passada, mas ainda não está na bolsa

MMX
Estréia no pregão da mineradora de Eike Batista, na segunda 24, indicará humor do mercado

ABYARA
Emissão de R$ 200 milhões é para transformar consultoria imobiliária em incorporadora

CESP
Captação de R$ 2,8 bilhões será a maior entre as ofertas do segundo semestre

KLABIN SEGALL
Setor imobiliário é tido como um dos mais promissores por investidores estrangeiros

CYRELA
Depois de suspender visitas a investidores no fim de maio, plano de emissão é retomado

 

70% das novas ações lançadas no mercado são compradas por estrangeiros