Apesar do impacto das tarifas anunciadas pelo governo americano, os países do Brics não têm usado as reuniões técnicas do bloco para alinhar uma reação coordenada contra a política comercial que está sendo implementada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Primeiro, não sabemos bem o que vai ser implementado pelos EUA. Segundo, cada membro do Brics tem o seu relacionamento com os norte-americanos. O Brics, como eu tentei colocar aqui na apresentação, não é um corpo homogêneo, unificado. Tem perspectivas diversas, tem nuances, tem interesses às vezes divergentes”, afirmou, em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o subsecretário de finanças internacionais e cooperação econômica do Ministério da Fazenda, Antonio Freitas.

Hoje, no escritório do ministério na avenida Paulista, Freitas participou de mais uma apresentação das prioridades do grupo a representantes da sociedade civil. Na segunda-feira, uma apresentação já tinha sido realizada no Palácio da Fazenda, no Rio de Janeiro, dentro dos eventos da trilha de finanças do Brics, neste ano presidido pelo Brasil.

Após o evento, Freitas disse ao Broadcast que, embora as medidas de Trump não estejam na pauta das reuniões do bloco, é possível que a cúpula do Brics termine com a defesa do livre comércio no comunicado do grupo. O encontro dos chefes de Estado está previsto para o começo de julho, no Rio Janeiro.

“O que pode ocorrer, o que já ocorria nos anos anteriores, são declarações em defesa do sistema multilateral de comércio, da OMC Organização Mundial do Comércio, de um comércio livre, mais aberto. Isso, sem dúvida. Mas daí para reações coordenadas, alguma coisa assim, isso não está na mesa não”, disse Freitas.

O subsecretário diz que o bloco não está engajado num debate sobre a criação de uma moeda comum alternativa ao dólar para as transações comerciais entre os países. “Não há discussão para uma moeda comum”, afirma.

“Eu, pessoalmente, acho dificílimo juntar dez países muito diferentes, com perspectivas muito diferentes, com regimes cambiais diferentes, políticas monetárias diferentes, políticas fiscais diferentes, e pensar que vão conseguir uma concertação para, um dia, quem sabe, criar uma moeda comum. Isso nunca esteve na agenda”, acrescenta o subsecretário.

Sugerida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a criação de uma moeda comum para facilitar o comércio entre as nações emergentes é repreendida por Trump, que já prometeu aplicar tarifas de 100% caso o Brics insista na iniciativa.

A facilitação do comércio e dos investimentos entre os países, o que passa pelos meios de pagamento, o financiamento climático e a coordenação da atuação dos membros em organismos financeiros internacionais estão entre os temas prioritários do Brics.

Conforme Freitas, fazem parte da agenda: mecanismo de facilitação das trocas de mensagens entre intermediários financeiros; a criação de mecanismos de garantias para financiamentos entre os países, com a participação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês) – o “banco do Brics”, comandado pela ex-presidente Dilma Rousseff -, ou de outros bancos; e discussões sobre a economia global.

Além dos membros originais – Brasil, Rússia, Índia e China – e da África do Sul, que entrou em 2011, fazem parte hoje do Brics outras seis economias: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. A expansão do grupo foi definida em 2023, durante a cúpula de Johanesburgo, na África do Sul.

Segundo o subsecretário de finanças internacionais e cooperação econômica do ministério da Fazenda, a expansão do Brics ampliou o alcance do bloco, mas aumentou o desafio de convergência entre seus membros.

“Você ter convergência entre cinco países grandes e importantes já é difícil. Agora, a tarefa ficou ainda mais desafiadora. No G20, conseguimos. Vamos ver agora no Brics, o que o Brasil consegue”, comenta Freitas, referindo-se à experiência do ano passado, quando o Brasil presidiu o grupo das 20 maiores economias do mundo.