Dados do Serasa Experian mostram que o volume de recuperações judiciais nunca esteve tão alto no Brasil. O indicador da datatech mostra que vigoram 977 processos de recuperação judicial iniciados no ano anterior -maior volume desde 2016. O movimento ocorre em um cenário de crédito mais restrito, custo financeiro elevado e aumento da inadimplência.

+ Quase 30% das empresas que entram em Recuperação Judicial vão à falência

Com isso, o Brasil chegou a um patamar de 2.466 empresas em recuperação judicial, recorde para a série histórica. O volume representa crescimento de 13% ante o ano anterior. Sob a ótica setorial, agro e serviços concentram o maior volume de pedidos.

Na contramão, globalmente os pedidos de falência caíram 19% no acumulado do ano de 2025.

Serasa Experian; Recuperação judicial; recuperações judiciais
Divulgação/Serasa Experian

A principal mudança no levantamento do Serasa Experian está na metodologia, dado que este indicador foi relançado.

Agora, a nova leitura separa o número de processos do número de empresas envolvidas. Na prática, isso permite distinguir o volume de casos na Justiça do impacto real sobre o tecido empresarial, já que um único processo pode incluir vários CNPJs de um mesmo grupo econômico.

Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, a atualização reflete a evolução do próprio ambiente de reestruturação no país.

“Historicamente, o indicador funcionava como uma fotografia do momento. Com o tempo, observamos que a dinâmica das recuperações judiciais é mais ativa do que a visão estática permite localizar. Um processo pode envolver diversos CNPJs, que inclusive podem ser inseridos posterior à data protocolada, passar por mudanças de fase ao longo do tempo e, em alguns casos, tramitar em segredo de justiça, nesse caso havendo a necessidade de uma atualização retroativa.”

Crédito seletivo e pressão no caixa

O aumento das recuperações judiciais está ligado ao ambiente de crédito. Com juros em patamar elevado – com Selic em 14,75% – e maior rigor na concessão, empresas com maior nível de endividamento enfrentam dificuldades para rolar dívidas ou captar novos recursos.

Nesse contexto, a recuperação judicial tem sido usada como ferramenta para reorganizar passivos e preservar operações. Mesmo com oscilações mensais, o indicador mostra que 2025 ficou acima da tendência histórica tanto em número de processos quanto em empresas envolvidas.

A média mensal entre 2012 e 2023 era de cerca de 53 processos. Em 2025, esse patamar foi superado de forma recorrente. Na ótica de CNPJs, a média histórica de 106 empresas por mês também foi ultrapassada ao longo do ano.

Recuperação judicial foi mais utilizada pelo agro e pelo ramo de serviços

A análise por setor mostra concentração das recuperações judiciais em dois segmentos: agropecuária e serviços. Em 2025, a agropecuária respondeu por 30,1% dos CNPJs em recuperação, seguida de perto por serviços, com 30%.

Na sequência aparecem comércio (21,7%) e indústria (18,2%). Em relação a 2024, houve aumento da participação do agro e leve avanço de serviços, enquanto comércio e indústria recuaram.

Serasa Experian; Recuperação judicial; recuperações judiciais
Divulgação/Serasa Experian

No longo prazo, a mudança é mais evidente. A participação da agropecuária saltou de 1,3% em 2012 para mais de 30% em 2025. Já indústria e comércio reduziram presença relativa no indicador.

O avanço do agro reflete características próprias do setor. Fatores como clima, variação de preços de commodities, custos de insumos e exposição cambial afetaram o fluxo de caixa de empresas do ramo.

Base de empresas cresce, mas inadimplência preocupa

Apesar do aumento das recuperações judiciais, a base de empresas ativas no Brasil segue em expansão. Entre 2023 e 2025, o número de companhias cresceu de forma consistente, com avanço mais forte no último ano.

Ao mesmo tempo, o número de empresas que recorreram à recuperação judicial continuou subindo, mas em ritmo menor. Após alta de 36,2% em 2023, o crescimento desacelerou para 26,4% em 2024 e 12,9% em 2025.

O cenário sugere uma espécie de normalização em um nível mais elevado. Ou seja, o instrumento continua sendo utilizado com frequência, mas sem o mesmo ritmo de aceleração observado anteriormente.

Ainda assim, os dados de inadimplência acendem um alerta. Em janeiro de 2026, havia 8,7 milhões de CNPJs negativados, com dívida média superior a R$ 23 mil por empresa e cerca de sete restrições por cadastro. Historicamente, o aumento da inadimplência antecede os pedidos de recuperação judicial.

Falências recuam

Enquanto as recuperações judiciais avançam, os pedidos de falência seguem em queda. Em 2025, foram registrados 698 CNPJs com pedidos desse tipo, uma redução de 19% em relação ao ano anterior.

Na comparação com 2012, a queda é ainda maior, de cerca de 61%. A mudança reflete a evolução dos instrumentos de renegociação de dívidas e a menor utilização da falência como mecanismo de cobrança por credores.

Mais judicial do que extrajudicial

Outro ponto do levantamento é a diferença entre recuperação judicial e extrajudicial. Em 2025, foram 977 pedidos na modalidade judicial, contra apenas 62 extrajudiciais.

A proporção indica que, para cada 16 recuperações judiciais, há uma extrajudicial. Embora esse tipo de acordo venha ganhando espaço, ainda depende de maior alinhamento entre credores, o que limita a adoção.