01/10/2026 - 15:23
Os custos de financiamento de longo prazo do Reino Unido atingem 6% pela primeira vez em quase três décadas, tornando o país a primeira economia do G7 a pagar uma taxa tão elevada desde a crise do euro de 2012. O movimento, que impulsionou os rendimentos dos títulos britânicos de 30 anos (gilts) ao maior nível desde março de 1998, é um reflexo de uma nova onda de vendas nos mercados globais de renda fixa, impulsionada pelo temor de que a disparada dos preços do petróleo reacenda a inflação.
O que aconteceu
- Os custos de financiamento de longo prazo do Reino Unido atingem 6%, um patamar não visto em quase 30 anos, sendo a primeira economia do G7 a registrar tal taxa desde 2012.
- A alta dos rendimentos dos títulos britânicos (gilts) é impulsionada por temores de inflação devido à disparada dos preços do petróleo e uma onda global de vendas na renda fixa.
- A situação coloca pressão sobre o governo britânico, que é altamente dependente de energia importada e possui contas públicas frágeis, impactando o próximo orçamento.
O rendimento dos gilts de 30 anos chegou a subir sete pontos-base, para 6,02%, nesta quinta-feira, antes de reduzir parte dos ganhos. Essa instabilidade não se restringe ao Reino Unido. Os Treasuries americanos também iniciaram o dia em queda, elevando o rendimento do título de referência de 10 anos ao maior nível desde 2002. Na França, os títulos foram pressionados por preocupações de que o governo possa ter dificuldades para controlar seu elevado déficit orçamentário.
A dependência do Reino Unido de energia importada e a fragilidade de suas contas públicas tornam o mercado de títulos do país especialmente vulnerável ao temor de que bancos centrais precisem elevar os juros de forma mais agressiva para manter a inflação sob controle. Essa pressão chega em um momento delicado, quando o primeiro-ministro Andy Burnham e o ministro das Finanças, John Healey, se preparam para apresentar seu primeiro orçamento, em 28 de outubro.
Quais os motivos para a alta dos custos de financiamento?
Especialistas apontam uma conjunção de fatores globais para a atual situação. “Preços mais altos do petróleo, números mais fortes de inflação na Europa e a continuidade da liquidação global dos títulos de prazo mais longo pesaram sobre o sentimento em relação aos títulos do governo britânico”, disse Evelyne Gomez-Liechti, estrategista de múltiplos ativos da Mizuho International.
Agne Stengeryte, estrategista de juros do Bank of America, corrobora a análise. “Parece mais um movimento global do que algo específico do Reino Unido”, afirmou. Ainda assim, a alta representa uma dor de cabeça para as autoridades britânicas. Segundo dados do governo, os custos de serviço da dívida do Reino Unido só ficam atrás dos gastos com saúde. O Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR) projeta que essa despesa seguirá aumentando nos próximos anos. O mercado de swaps agora precifica quatro altas de juros pelo Banco da Inglaterra até o fim do próximo ano.
Crise do euro e contexto global
A última nação do G7 a registrar custos de financiamento de longo prazo acima de 6% foi a Itália, em 2012, quando a zona do euro ainda enfrentava uma crise de dívida soberana e do sistema bancário. O estresse financeiro e os resgates acabaram levando o Banco Central Europeu a intervir para proteger a moeda única.
Os títulos públicos vêm recuando em todo o mundo à medida que os preços elevados do petróleo, ligados à guerra no Oriente Médio, se espalham pela economia global e levaram o Federal Reserve a elevar os juros no mês passado. Ao mesmo tempo, os elevados déficits públicos e os investimentos maciços em infraestrutura de inteligência artificial aumentam a demanda por capital e fortalecem as expectativas de crescimento, contribuindo para a alta dos custos de financiamento.
Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos dos EUA chegaram a subir quatro pontos-base, para 5,33%, nesta quinta-feira, enquanto o petróleo Brent avançava quase 3%, superando US$ 100 por barril. “Quanto mais os rendimentos sobem, impulsionados pelos Estados Unidos, maior é o dano colateral para os demais países”, disse Megum Muhic, da RBC.
Os títulos franceses foram fortemente pressionados antes de se recuperarem. A perspectiva de uma eleição presidencial no próximo ano, colocando extrema direita e extrema esquerda frente a frente, reduziu o apetite dos investidores pela dívida do país. Os rendimentos dos títulos franceses de 10 anos chegaram a subir 11 pontos-base, para 4,97%, enquanto o prêmio exigido pelos investidores para deter papéis franceses em vez dos mais seguros títulos alemães avançou seis pontos-base, para 133 pontos-base. O movimento, porém, foi revertido mais tarde na sessão de quinta-feira. Os títulos franceses e alemães passaram a registrar ganhos após uma queda nos preços do diesel.
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