Aos 19 anos, ele era uma espécie de João Valentão. No Exército, pintou com listras cor-de-rosa o cavalo branco de um certo capitão Cardoso. Hoje, aos 62 e instalado na Granja do Canguiri, residência do governo do Paraná, Roberto Requião está mais sereno. Na fria manhã do inverno curitibano em que recebeu a DINHEIRO, ele desviava o olhar, entre uma pergunta e outra, para acompanhar o bailado de duas avestruzes, suas ?meninas? que corriam pelo gramado. Por vezes, recitava versos de Carlos Drummond de Andrade, como querendo se comparar àquele que, quando nasceu, foi avisado por um anjo torto que seria gauche na vida. Naquele ambiente bucólico, em meio às onipresentes araucárias, Requião se preparava para uma disputa bilionária. Mais uma. Desde que se instalou no poder paranaense, ele já brigou com capitalistas poderosos como Itaú, Andrade Gutierrez, Vivendi, Opportunity, Renault e El Paso.

Anulou contratos, reviu privatizações e, pelo que conta, sofreu até tentativa de suborno. Naquele dia, Requião estava prestes a disparar sua metralhadora na direção de outro alvo: as concessionárias de estradas. No Paraná, 2,4 mil quilômetros de rodovias foram transferidos à iniciativa privada. Requião quer assumir os pedágios e reduzir o preço. ?A privatização foi um trambicaço?, disse (leia sua entrevista na página 38).

Por quatro horas, sem alterar o tom de voz, Requião apresentou os argumentos de sua mais nova guerra, numa conversa seguida de almoço com vinho chileno e codornas assadas. Para o governador, o pedágio deveria ser, pelo menos, 40% mais barato. Como exemplo, citou que na Argentina as tarifas representam 20% do que se paga no Paraná. Mostrou um estudo das cooperativas agrícolas, apontando o pedágio como o maior entrave à competitividade dos produtores, com peso de R$ 80 milhões no custo da safra. Por isso, na terça-feira 10, ele encaminhou à Assembléia Legislativa um projeto em que o governo encampa as estradas. Os empresários receberiam o que investiram e devolveriam as praças de pedágio ao Estado. Aí começa a confusão. ?Se ele quiser as estradas, que pague R$ 3 bilhões às empresas?, avisa Moacir Duarte, presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias. Na sua conta, os R$ 3 bilhões seriam a soma do dinheiro investido e dos lucros cessantes, uma vez que os contratos são de 30 anos. Requião ri e diz que o valor pago será irrisório. ?Os empresários só pintaram asfalto e cortaram mato.?

O estilo Requião de governar já mudou a paisagem econômica do Paraná. A Sanepar é um exemplo disso. A empresa havia sido parcialmente privatizada. Opportunity, Andrade Gutierrez e Vivendi, com 32% das ações, administravam a empresa. Com uma canetada, o governador mudou o acordo de acionistas e assumiu a companhia. Na Copel, empresa de energia, ele rompeu contratos com a empresa texana El Paso e a espanhola Endesa. Os acordos obrigavam a Copel, que tem sobra de eletricidade, a comprar uma energia térmica muito mais cara. Só neste ano, o prejuízo seria de R$ 1,2 bilhão. ?Quebrariam a Copel?, alerta Requião. Neste caso, o próprio mercado financeiro dá razão ao governador. Num relatório, o Unibanco apontou tais contratos como os maiores problemas da Copel. Contra o Itaú, que adquiriu o Banestado, banco estadual local, há também uma guerra particular. A privatização engessou a administração financeira do Estado, que é obrigado a manter os recursos no Itaú. Mas Requião já tirou os depósitos das estatais e tenta excluir o resto com uma ação no Supremo. O governador também fechou os bingos do Paraná, alegando que se prestam à lavagem de dinheiro. E, na sua mira, resta ainda a Renault, que se instalou no Paraná graças à guerra fiscal. Recebeu do governo anterior, de Jaime Lerner, uma dilação de 26 anos no prazo para pagamento de ICMS. ?Ou nacionalizam a produção e transferem tecnologia para o Paraná, ou anulo os incentivos fiscais.?

Com posturas como essa, Requião se tornou uma novidade no mapa do poder. De todos os governadores, é o que tem agido de forma mais dura na busca de um modelo alternativo ao que se convencionou chamar de neoliberalismo. Nos jornais populares, já foi retratado na pele de John Wayne, como se fosse um justiceiro local. As pesquisas revelam aprovação à sua gestão superior a 70%. Mas seu modo de agir, naturalmente, é polêmico. ?Ele é um populista pernicioso, na contramão da história?, avalia o consultor Maílson da Nóbrega, tradicional porta-voz de teses ortodoxas. Requião espanta-se com a crítica. Ele admite ser uma espécie de contraponto, mas se define como o avesso do populismo. E isso até explica sua mudança para a Granja do Canguiri, escolhida para que ele se isolasse das pressões de eleitores que, todos os dias, formavam filas na porta de sua casa em Curitiba. Sua atuação não convencional também aguçou a curiosidade dos analistas políticos. ?Se o que ele propõe der certo, será um candidato natural à Presidência?, avisa o consultor Gaudêncio Torquato. Uma hipótese que o próprio Requião não descarta.

DINHEIRO ? Por que o sr. quer retomar as estradas?
ROBERTO REQUIÃO
? Um quilômetro de recuperação de estrada pode custar R$ 1 milhão ou R$ 10 milhões. Não há fiscalização nem concorrência. Por isso, vamos assumir as empresas, fazer auditorias e pagar o pouco que investiram. Quero retomar as estradas uma a uma. Agirei como o esquartejador. Uma por vez.

As empresas pedem indenização de R$ 3 bilhões.
Seria divertidíssimo. Eles têm 2,4 mil quilômetros de estradas. Com o dinheiro que querem, daria para construir 6 mil quilômetros, indo de Curitiba a Salvador e voltando.

O sr. não está rasgando contratos?
Não existe direito adquirido contra o interesse público. Aqui colocamos as coisas no devido lugar, como na Sanepar, empresa de saneamento.

Como assim?
Os sócios privados, Opportunity, Andrade Gutierrez e Vivendi, tinham 32% do capital, mas controlavam a empresa. O governo anterior entregou a Sanepar e eu a retomei com um decreto.

Que mal havia na gestão?
Acabaram com a tarifa social, por exemplo.

Como os sócios privados reagiram à sua ação?
Procuraram um suposto superintendente da Sanepar e ofereceram uma grana, mas eu sou insubornável.

O sr. tem como provar isso?
Há testemunhas.

A empresa irá perder rentabilidade?
O negócio da Sanepar não é dar lucro para Opportunity, Andrade e Vivendi. Retorno é dar água e esgoto para o povo. Quando expus o que acontecia, até os franceses da Vivendi ficaram escandalizados. Era demais, acima do tolerável pelo crime internacional.

O sr. irá rever incentivos da Renault?
Sim. As multinacionais se instalaram aqui com dinheiro do Estado. Mas a participação de produtos paranaenses nos carros é de 2%. A montadora é um disco voador que pousou aqui e pode ir embora como foi da Bélgica, de Portugal e da Argentina. Posso compor, desde que eles nacionalizem a produção e transfiram tecnologia para o Paraná.

E se eles demitirem?
Ora, as padarias empregam mais. Aqui no Paraná nós zeramos os impostos dos microempresários. A situação anterior era só dar incentivo a multinacional. O foco agora é o desenvolvimento local.

Por que o sr. reviu os contratos da Copel?
Porque era outro absurdo. Nós geramos 4,5 mil megawatts/hora e consumimos 2,4 mil. Temos excesso de energia. E o que aconteceu? O governo passado fez contratos dignos das antologias do neoliberalismo brasileiro. Eles nos obrigam a pagar 30 dólares por uma energia desnecessária. E nossos excedentes são vendidos no mercado atacadista por cinco reais. Ou seja: vendemos a mesma coisa por cinco reais e compramos por 90 reais.

O que o sr. fez?
Anulei os contratos. Os ex-diretores da Copel estão com bens indisponíveis. Só não estão na cadeia em função da discussão sobre foro especial.

E o lobby das empresas?
A embaixadora americana, Donna Hrinak, nos procurou. Disse que estávamos atingindo uma empresa americana. E nós a lembramos que a Copel tem 15 mil acionistas americanos. Ela sumiu. Esses contratos nos dariam prejuízo de R$ 1,2 bilhão neste ano.

Por que o sr. questiona o contrato que o obriga a manter recursos no Itaú?
A Constituição diz que recurso público fica em banco público. O Roberto Setubal comprou o Banestado por R$ 1,6 bilhão e recebeu R$ 1,8 bilhão em créditos fiscais. Um presente. Outro dia, os procuramos para ver se pagariam uma exposição chinesa no Paraná. Nem deram resposta. A ganância é muito grande.

Há quem o acuse de estar na contramão da história.
A grande mídia está na contramão de uma visão nacional para o País. Eu faço um contraponto. Sou o antipopulista.

O sr. aprova o início do governo Lula?
O risco é a síndrome de Estocolmo. O Brasil foi seqüestrado pelo mercado. E, às vezes, o seqüestrado acaba se apaixonando pelo seqüestrador.