19/02/2003 - 7:00
Desde que as suas reportagens no Washington Post sobre o caso Watergate ajudaram a derrubar o presidente Richard Nixon, em 1974, o jornalista Bob Woodward converteu-se no grande insider da imprensa americana, um repórter poderoso e bem informado que é capaz de iluminar as entranhas do poder e revelar movimentos e intenções de seus principais protagonistas. Pois foi com essas credenciais, e um enorme senso de oportunidade comercial, que Woodward se lançou à dificílima empreitada de narrar, de dentro da Casa Branca, os 100 dias posteriores ao 11 de setembro ? provavelmente o período mais tumultuado da história americana desde o ataque a Pearl Harbour, em 1941. O resultado pode ser lido em Bush At War, uma reportagem de 400 páginas publicada em capa dura pela Simon & Schuster que está sendo vendido pela Amazon a US$ 16,80. Ainda não existe tradução do livro em português, mas se existisse não seria uma leitura popular. Baseado em uma centena de entrevistas gravadas (entre elas, quatro horas de conversa com o presidente americano), o livro é um mergulho no processo de tomada de decisão da administração republicana ? Woodward detalha reunião por reunião, conta quem disse o quê em cada uma delas e revela, discretamente, os bastidores de cada um desses debates. E nisso reside sua força e sua fraqueza. Seu virtuosismo informativo, ao mesmo tempo que ajuda os interessados a compreender como funciona a mais poderosa e complexa burocracia política do planeta, produz uma leitura maçante, a despeito do texto altamente profissional do seu autor. Um livro mais curto e melhor editado provavelmente seria mais interessante para o leitor comum.
Quem, no entanto, encarar a tarefa de desbastar a selva de detalhes de Woodward vai encontrar boas surpresas. A primeira e mais importante delas é o próprio presidente Bush, cuja personalidade é retratada com cores muito mais interessantes do que suas aparições públicas sugerem. Talvez porque Bush tenha ajudado muito na apuração do livro, acaba aparecendo em suas páginas como um líder emotivo e visceral, capaz de conduzir-se por instinto nas crises e apto a comandar uma equipe de auxiliares muito mais experientes e testados do que ele. Suas intervenções nas reuniões são pertinentes e descontraídas, as exigências que faz aos subordinados são justas, seus sentimentos em relação ao país e seus inimigos são simples, embora firmes e sinceros. Mesmo em episódios complicados, como a criticadíssima ausência de Bush de Washington nas horas posteriores ao atentado, Woodward dá um jeito de salvar o presidente. Nesse caso atribui a culpa por aquela aparente covardia a decisões de assessores de terceiro escalão. Bush nunca parece um presidente brilhante, mas surge no livro como um homem de sentimentos sólidos, profundamente religioso, imbuído desde o 11 de setembro de um senso inabalável de missão ? a de caçar e punir os terroristas e países que tornaram possível os atentados em Washington e Nova York. Se esse é o presidente real ou apenas uma construção patriótica de Woodward é uma questão em aberto.
Entre os inúmeros fatos que Bush At War revela há um particularmente doloroso ? que o presidente e sua assessora de segurança nacional, Condoleezza Rice, foram informados detalhadamente pela CIA de que a Al Qaeda de Bin Laden era uma das três maiores ameaças internacionais aos Estados Unidos. As outras eram a disseminação de armas de destruição em massa e o crescimento da China. Por uma mistura de azar, inércia burocrática e negligência, as ações contra a rede de terroristas árabes propostas pela CIA nunca chegaram a ser discutidas pelo gabinete presidencial. Depois do 11 de setembro, claro, a máquina do governo voltou-se inteiramente para o processo de busca e punição dos culpados, no qual se encontra mergulhada até agora. Lendo o livro de Woodward se entende como os atentados abalaram pessoalmente Bush e por que eles se converteram em uma obsessão de governo, além de uma fonte fácil de legitimidade para o presidente e suas ambições de reeleição. Quem desaprova o belicismo americano não vai sair desse livro reconciliado com Bush e com os falcões que o cercam, mas sobra da leitura alguma simpatia por esse presidente-simples-como-a-gente. Se ele existe ou não, Woodward é quem sabe.