16/04/2003 - 7:00
Chama-se Gilberto Carlos Rigoni o novo messias da Varig. Ele assume nesta semana o lugar de Yutaka Imagawa na presidência da FRB-Par, empresa que administra a Varig para a Fundação Rubem Berta. Trata-se de uma intervenção branca do governo, condição prévia para a rolagem de parte de uma dívida de US$ 280 milhões. Também está no pacote a devolução pela Petrobras de US$ 200 milhões desembolsados pela Varig nos últimos cinco meses para quitação de dívidas antigas. A entrega do comando a Rigoni é uma solução caseira. Funcionário mais antigo da companhia, prestes a completar 52 anos na Varig em junho, Rigoni destaca-se por duas características. A primeira é o gosto pelos estudos ? caso raro de um piloto formado em Filosofia e Letras, Ciências Sociais, Administração de Empresas e Contabilidade. A
outra é a paciência. Além de participar do conselho administrativo
da FRB-Par, foi o primeiro ouvidor-geral da Varig. Adepto do lema ?o cliente sempre tem razão?, costuma defender que problema não é algo para ser passado adiante. Daí sua decisão de aceitar o desafio e substituir Imagawa.
Rigoni não era a primeira opção. O nome lembrado era o de Nilton Molina, o atual presidente e sócio da seguradora Icatu Hartford. Na tarde de quinta-feira 10, seu nome foi levado à direção da Varig, no Rio de Janeiro, pelo economista Luciano Coutinho, coordenador do projeto de fusão da companhia com a TAM. O negociador do governo não conseguiu vencer a aliança fechada entre Imagawa e sindicalistas, contrários à fusão da Varig com a TAM. A reunião foi acalorada e, sentindo que o clima não seria propício para si, Molina pulou fora. Na sexta 11, ocorreu em Porto Alegre uma Assembléia Geral da FRB-Par. Estava acertada a renúncia de Imagawa e de mais dois conselheiros. O governo não queria mais dialogar com eles. Ascenderiam três conselheiros comprometidos com a fusão, indicados pela CUT.
Esse foi apenas o último de uma série de intensos movimentos de bastidores ocorridos nos últimos dias no setor aéreo. No governo, a corrida é por dar algum oxigênio de curtíssimo prazo para a Varig. Também se tenta salvar o plano de fusão do estado agonizante. A 1º de abril último, ocorreu no Palácio do Planalto uma série de reuniões decisivas para o setor. A maratona começou às 16 horas, na sala do ministro José Dirceu, da Casa Civil, e só terminou às 21 horas, no gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foram convocados os ministros José Viegas (Defesa), Antônio Palocci (Fazenda), Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) e Dilma Roussef (Minas e Energia). Em pauta, a necessidade de o governo ajudar a Varig. Dirceu e Viegas defenderam a idéia; Palocci concordou; Furlan e Dilma foram contra. ?Não quero nenhuma empresa dessas fechando?, decretou Lula. Ele pediu, em contrapartida, que as companhias parassem por um mês com as demissões. A TAM demitira dias antes 342 pessoas, incluindo 71 pilotos. Faltam mais 128 nessa hecatombe. A Varig iria demitir 1.500 nas próximas semanas. O projeto preliminar da fusão prevê até 9 mil demissões nas duas companhias. É mais do que a TAM sozinha. Lula acha que não se pode matar uma companhia inteira para salvar outra. ?O enxugamento substancial das empresas é a alma da fusão?, avisa um executivo engajado no processo. ?Só há uma forma de viabilizar o projeto: o governo colocar dinheiro novo e, simultaneamente, Lula permitir que hajam milhares de degolas.?
Decidiu-se no Palácio do Planalto que Infraero, Petrobras e Banco do Brasil vão alongar as dívidas da Varig que estão vencendo este ano. Infraero já assinou o acordo. Com o BB, as negociações estão adiantadas. Há dificuldades com a Petrobras. Desde novembro, a Varig está pagando à vista o combustível que consome, R$ 5,2 milhões por dia. A companhia quer 40 dias de prazo para pagar as faturas, como concedido às demais. ?A ordem de Brasília é para cobrar à vista; só mudo com uma contra-ordem por escrito do José Dirceu ou da ministra Dilma?, avisou um diretor da Petrobras. A Varig também quer alterar o Código de Aviação Civil, de forma a permitir que as companhias aéreas tenham o direito de pedir concordata. Sobre esse assunto, o governo decidiu criar uma comissão para estudar todo o setor aéreo. A recomendação é que se faça exercício sobre o mercado com a fusão e sem a fusão.