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Na semana passada, um documento surpreendente veio a público. Era uma retratação, registrada em cartório, feita pelo empresário Rogério Buratti, na qual ele inocenta totalmente o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci. É um fato importante, porque realimenta as esperanças de uma ala do PT que ainda enxerga no ex-ministro o melhor nome para suceder ao presidente Lula, em 2010. Para quem não se lembra, dois anos atrás, Buratti disse que Palocci recebia um “mensalinho” de R$ 50 mil quando era prefeito de Ribeirão Preto, pago pela empreiteira Leão Leão. Agora, na retratação divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo, Buratti muda a versão, dizendo que foi ameaçado por representantes do Ministério Público e da Polícia Civil, de São Paulo. Se não incriminasse o ex-ministro, sua prisão preventiva seria convertida em temporária, colocando em risco sua integridade física. Sem escolha, ele teria então inventado uma história fantasiosa contra o ex-ministro para ganhar a liberdade. No documento, ele diz que se submeteu aos policiais para se livrar de “ameaças concretas” e de uma situação “humilhante e constrangedora”.

Depois desse escândalo, agora colocado em xeque pelo próprio denunciante, Palocci se transformou numa espécie de morto-vivo na Esplanada dos Ministérios. Resistiu pouco tempo, até ser alvejado por outra denúncia: a de que havia ordenado, no início de 2006, a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Com essa reviravolta no primeiro caso, ainda é cedo para dizer se Palocci, deputado federal por São Paulo, terá condições de retomar um papel de primeira grandeza na cena política nacional. Até porque os responsáveis pela din543_palocci 2/20/08 11:03 PM Page 2 investigação de Ribeirão Preto questionam a retratação de Buratti. “Isso não tem valor”, disse à DINHEIRO o delegado Benedito Valencise, que conduziu as investigações sobre o caso Leão Leão. “Será que ele mudou a sua versão para proteger alguém?“. De acordo com o delegado Valencise, Buratti perderá os benefícios da delação premiada e responderá por falso testemunho, além de crimes como formação de quadrilha, peculato e fraude em licitações.

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ROGÉRIO BURATTI: em agosto de 2005, quando foi preso, ele acusou o ex-ministro Antônio Palocci de receber um “mensalinho” de uma empreiteira. Dois anos depois, ele voltou atrás e disse que só fez a denúncia porque foi ameaçado pelos policiais e pelos repr

FRANCENILDO COSTA: depoimentos do inquérito inocentam ex-ministro Palocci

Uma das duas versões, obviamente, é mentirosa. Se é possível imaginar que Buratti fez um acordo com o ex-ministro, é também plausível que, em 2005, ele tenha sucumbido à pressão dos delegados e procuradores – naquela época, ele foi algemado e exibido como um troféu em rede nacional de televisão. Era um momento em que líderes da oposição definiam Palocci como “o pau do circo” – ou seja, sem ele, a lona do governo Lula cairia. Esse clima, naturalmente, contribuiu para a avalanche de denúncias contra o ex-ministro. Procurado pela DINHEIRO, Palocci não retornou as ligações, mas, segundo seus assessores, ficou “surpreso” com a posição de Buratti. O ex-ministro também espera poder esclarecer o caso Francenildo, cujo sigilo foi quebrado no momento em que ele depunha na Polícia Federal. Embora a PF tenha recomendado o indiciamento de Palocci há mais de um ano, até hoje a denúncia não foi apresentada pelo procuradorgeral da República, Antonio Fernando de Souza, que analisa o caso. No inquérito, todos os depoimentos inocentam o ex-ministro.

Caso consiga se livrar do peso dessas duas acusações, o ex-ministro Palocci, que conta com o apreço do presidente Lula e com a simpatia da classe empresarial, poderá sonhar com vôos mais altos. A última pesquisa CNT Sensus, realizada na semana passada, apontou que Lula tem quase 70% de aprovação. No entanto, ainda não surgiu nenhum candidato viável na base governista. O ex-ministro Palocci talvez possa vir a ser este nome.