Os bolcheviques que tomaram o Palácio de Inverno em Petrogrado, em outubro de 1917, sabiam que estavam escrevendo uma nova página na história. Ao proclamar a vitória comunista, Lênin fez um brinde ao futuro: ?Vida longa à revolução dos operários, soldados e camponeses!?. Lênin morreu em 1924, mas sua revolução sobreviveu mais de 70 anos. Ruiu apenas em 1989, junto com a queda do Muro de Berlim, e o sonho igualitário naufragou por um misto de arbítrio, corrupção e ineficiência. Entretanto, a Revolução Russa, que chega ao nonagésimo aniversário, acabou contribuindo, de forma paradoxal e dialética, para a modernização do próprio capitalismo.

Ao colocar o Estado no centro das decisões, ?o novo aparato de administração?, saudado por Lênin, exerceu forte influência nas economias ocidentais, antes marcadas pela ?exploração do homem pelo homem?, tão presente no início da industrialização européia. Por temerem o risco de revoltas populares inspiradas na Rússia, vários países europeus se anteciparam, ampliaram os direitos trabalhistas, deram autonomia aos sindicatos e aumentaram a intervenção do Estado nos negócios privados. Impressionado com o planejamento soviético, que gerou resultados superiores aos das economias capitalistas na sua primeira fase, o economista inglês John Maynard Keynes, em 1936, lançou seu livro clássico Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, em defesa do investimento estatal como motor que faltava ao capitalismo. Como contraponto, o economista austríaco Friedrich von Hayek, fazia a defesa isolada das idéias liberais e escreveu o livro O caminho da servidão, que, com cinco décadas de antecedência, previu o colapso do comunismo.

O fato é que, àquele momento, a fórmula keynesiana ganhava adeptos, como o presidente americano Franklin Roosevelt. Com o seu New Deal, ele tirou a economia das cinzas, usando o poder do Estado. O maior exemplo foi a criação da Tennessee Valley Authority, um plano de desenvolvimento regional numa das áreas mais pobres dos Estados Unidos. O investimento pesado em energia elétrica foi rapidamente comparado à prioridade que a União Soviética conferia à eletrificação. Políticos conservadores acusaram Roosevelt de criar um poderoso instrumento de ?socialismo regional? e de seguir ?um modelo comunista?. Roosevelt respondeu com bom humor: ?O plano não é carne nem peixe, mas seja o que for, será muito bemvindo para a população do Tennessee?.

DOS TANQUES AO LUXO: orgulho russo, antes militar, hoje se mede pelo grau de consumo

Depois da Segunda Guerra, o comunismo contribuiu com um novo e providencial empurrão no capitalismo. Preocupados com a expansão da União Soviética, os Estados Unidos lançaram o Plano Marshall, um pacote de ajuda financeira para a reconstrução da Europa Ocidental. Entre 1947 e 1951, foram investidos US$ 13 bilhões na região. O Brasil, país aliado, não ficou de fora. Recebeu a promessa de investimentos no valor de R$ 500 milhões. O que levou o presidente Eurico Dutra a lançar o plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia) em 1948. Em tempos de Guerra Fria, foi instalada também a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. Foram elaborados 57 projetos, com ênfase em ferrovias e portos. Os projetos deram frutos. A criação do BNDES, por exemplo, nasceu das discussões de economistas brasileiros e americanos, tanto assim que seu primeiro presidente foi Roberto Campos. Com sua meta de realizar 50 anos em 5, o governo Juscelino Kubitschek bebeu na mesma fonte.

Portanto, não faltam exemplos de respingos da Revolução Russa na seara capitalista. Mas os tempos mudaram. E hoje o intervencionismo estatal já não é bem visto. A própria Rússia de Vladimir Putin não pára de crescer graças aos investimentos privados. O país se modernizou, tem uma nova geração de milionários e as grifes de luxo tomaram conta de Moscou. No próximo dia 7, Putin realizará a tradicional parada militar na Praça Vermelha em homenagem à revolução. Mas ele sabe que o comunismo é página virada.