26/03/2026 - 7:30
Com um sistema financeiro sólido em uma regulação relativamente avançada, o Brasil é benchmark (referência), afirma Glauber Mota, CEO da Revolut, fintech europeia que já fincou o pé em mais de 40 geografias. Segundo ele, o país tem um ‘ambiente competitivo’ e que, no fim do dia, gera mais valor para os clientes. Ao mesmo tempo, tem a resiliência de um país latino, com histórico de crises mais extenso e um passado de hiperinflação não tão distante.
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Com cerca de 70 milhões de clientes no mundo todo, a fintech que oferece conta digital multimoeda entrou no Brasil em meados de 2023 e paulatinamente aumentou sua presença. No fim de fevereiro, decidiu zerar taxas para compras internacionais a fim de aumentar o market share.
A ideia de colocar o pé no acelerador no crescimento em solo brasileiro se deu com o aval da operação global – que enxerga no mercado uma oportunidade relevante, ainda que o mercado de contas gobais já tenha players estabelecidos e, no momento, viva uma ‘guerra de taxas’ para conquistar mais clientes.
“O Brasil está na direção certa quando se fala em regulação financeira. Há um conjunto de iniciativas que, juntas, criam um ambiente mais competitivo e com mais benefícios para o cliente final, o que é essencial para a evolução do sistema. (…) As maiores áreas da empresa são justamente controle, risco, compliance e prevenção a fraude. Isso mostra como operar em um ambiente regulado como o brasileiro exige estruturas robustas, o que eleva o nível de todo o sistema financeiro, diz o CEO da Revolut ao Dinheiro Entrevista.
Na visão de Mota, o executivo brasileiro lida melhor com cenário adversos – enquanto o gringo é mais acostumado com um ambiente de negócios mais estável.
“O Brasil opera com taxas de juros altas e inflação de forma mais natural do que outros países. Esse aprendizado local acaba sendo exportado, porque muitos mercados não têm experiência com esse tipo de ambiente.”
‘Exportação’ de conhecimento com Pix e Open Finance
Com presença global, a Revolut entende que o know-how do Brasil, para algumas coisas, também é exportado. Em outras palavras, a operação global não envia ordens de cima para baixo, mas vê um fluxo de ida e volta, com particularidades do mercado doméstico servindo de mola propulsora para produtos e estratégias em outras geografias onde a empresa atua.
“A experiência com o Pix abriu a cabeça dos colegas no exterior para pensar em soluções inovadoras. O que foi desenvolvido no Brasil começa a influenciar discussões e produtos em outras geografias”, relata.
“Explicar boleto e IOF para estrangeiros é um desafio constante, especialmente quando há mudanças regulatórias rápidas. Mas, ao mesmo tempo, quando eles veem os resultados e o engajamento dos clientes, percebem que existe um sistema sofisticado funcionando por trás”, complementa.
As falas estão em linha com o que outros executivos de instituições financeiras de presença global tem dito acerca do Brasil.
De fora geral, Pix e Open Finance são vistos como as joias da coroa da agenda de inovação do Banco Central (BC) – chamada de Agenda BC#.
Ao Dinheiro Entrevista, o General Manager do PayPal já havia citado que o sistema de pagamentos instantâneo do BC deixava estrangeiros ‘perplexos’.
“Quando a gente conversa internamente com os executivos de fora, e muito dos americanos, eles vêm a facilidade que um Pix é para realizar essas transferências entre diferentes instituições. Eles realmente ficam um pouco perplexos, porque o papel do regulador foi realmente para que isso fosse permitido e descomplicasse a vida de todo mundo”, disse Brunno Saura, à época.
Segundo dados da Statista divulgados no início de 2025, Estados Unidos, Reino Unido, Índia, Canadá e Brasil lideram o mundo em número de fintechs – na esteira de uma regulação favorável à inovação.
O Brasil concentra 58,7% das fintechs da América Latina, mantendo liderança regional. O modelo regulatório adotado pelo Banco Central é frequentemente citado como fator central desse avanço e tem sido observado por outros países.
A regulação brasileira é vista como amigável à inovação, mas rigorosa em termos de governança ao mesmo tempo.
Caminhando para seis anos de existência, o Pix se consolidou como um dos principais sistemas de pagamento instantâneo, e em 2023 as transações digitais já representavam mais de 80% das operações bancárias no país – confirmando a tese de que o brasileiro seria um early adopter de novas tecnologias.
Apenas em janeiro de 2026, foram registradas mais de 7 bilhões de operações, movimentando trilhões de reais. Esse fenômeno não só reduziu drasticamente o uso de dinheiro em espécie, mas serviu de modelo para diversos países que buscam replicar a infraestrutura de pagamentos instantâneos de baixo custo e alta disponibilidade do Brasil.
Ao mesmo tempo, o Open Finance no Brasil alcançou escala elevada, com 60 milhões de consentimentos ativos registrados em 2025 e mais de 2 bilhões de integrações. O cenário fez com que o mercado de crédito expandisse, instituições fossem mais precisas na oferta de produtos e novos produtos fossem criados.
O modelo brasileiro de Open Finance é considerado o maior do mundo em termos de escopo e adesão. Diferente do pioneiro Reino Unido, o Brasil avançou mais rápido na integração de seguros, investimentos e câmbio.
Os dados mais atualizados, de 2026, apontam que cerca de 15% dos usuários de serviços bancários já compartilham seus dados ativamente para obter melhores taxas de crédito ou serviços personalizados. Para fins de comparação, no Reino Unido esse patamar fica em 13%
Capital de risco ainda é entrave
Os juros altos, citados pelo executivo da Revolut, ainda são um obstáculo para o ganho de competitividade no Brasil, entretanto.
Com um ambiente de menos apetite ao risco, o Brasil ainda enfrenta desafios para converter essa tecnologia em crescimento econômico amplo.
O Ranking Mundial de Competitividade Digital de 2026 mostra que o Brasil subiu para a 53ª posição, destacando-se no uso de smartphones e serviços públicos online, mas sofrendo com a escassez de capital de risco e mão de obra qualificada na contramão.
Ou seja, o panorama é de um sistema financeiro de primeiro mundo, mas com desafios para os próximos anos que incluem refinar ainda mais o que já deu certo, garantir mais eficiência, mais produtividade e um cenário que permita ao setor produtivo tomar mais risco – incluindo via crédito e produtos financeiros.
