11/08/2001 - 7:00
O peruano Hernando de Soto é o economista latino-americano de maior prestígio na comunidade internacional. Para a britânica The Economist, o Instituto da Liberdade e Democracia, seu think-tank sediado em Lima é um dos mais importantes centros de pesquisas para a formulação de políticas públicas no mundo em desenvolvimento. Em visita ao Rio, ele lançou o livro O Mistério do Capital, onde propõe a inserção de empreendedores informais, como camelôs e perueiros, na sociedade capitalista. Mesmo os favelados, na sua visão, possuem uma riqueza extraordinária, não percebida pelo sistema de crédito. ?Reconhecer direitos de propriedade e dar posse da riqueza gerada por essa parcela da sociedade seria o primeiro passo para inseri-la no mundo capitalista”, afirma Soto. Ele estima a riqueza dos excluídos e informais em US$ 9,3 trilhões, valor que poderia servir como garantia para a obtenção de empréstimos no sistema financeiro.
Em seu livro El Otro Sendero, de 1986, Soto criticou a forma como o Estado sufoca os empreendedores, com burocracia e impostos, empurrando-os para a informalidade. O título sugeria um caminho alternativo ao oferecido pelo movimento guerrilheiro Sendero Luminoso. No governo do presidente Alberto Fujimori, a quem o economista assessorou, camponeses que plantavam coca receberam títulos de suas propriedades e ganharam crédito para o cultivo de alimentos. “O país respondia por 70% da produção mundial de coca e passou a plantar apenas 25%”, cita Soto. A formalização de 290 mil empresas em 1992 teria determinado o crescimento econômico peruano de 13% nos dois anos seguintes.
A fama de Soto lhe rendeu convites para integrar grupos de estudos do Banco Mundial, da ONU e da Organização Internacional do Trabalho. ?Vejo o ambiente de prelúdio de uma nova ordem econômica mundial?, avalia. O peruano propõe a volta às origens do capitalismo como solução para a inclusão social. ?O sistema de crédito, base do sistema, surgiu no século 17 na Holanda, com a aceitação de títulos de propriedade como garantia?, compara. Como a riqueza dos pobres informais não consegue reconhecimento legal, Soto defende a revisão dos critérios do setor formal. ?A poupança dos pobres é feita mais em coisas físicas, como material de construção, do que líquidas, como ações e papéis financeiros.?
O economista encontrou-se na semana passada com os prefeitos Marta Suplicy, em São Paulo, e César Maia, no Rio. ?Sai dez vezes mais caro urbanizar e regularizar uma favela consolidada que distribuir títulos de terra?. Esperar a família invadir o terreno, construir a moradia, para depois levar eletricidade, água e telefone, revela-se uma boa estratégia eleitoral, mas não econômica. A informalidade brasileira está estimada em torno de 70% do Produto Interno Bruto. Soto garimpou casos pelo mundo de confusões estatais na hora de legalizar empresas. ?Para abrir uma padaria no Egito o processo leva 650 dias?, conta.