17/07/2002 - 7:00
Vem aí mais uma polícia para os EUA. O presidente americano George W. Bush anunciou, na semana passada, a criação de uma espécie de Swat financeira. Seu objetivo é combater as fraudes
nas corporações, que têm ferido a credibilidade
do capitalismo americano. Além de criar o novo batalhão de investigações contábeis, Bush quer duplicar a pena por crimes do colarinho branco. Seu discurso foi duro e algo teatral. O efeito, porém, foi pífio. As bolsas de valores caíram. Investidores estavam preocupados mesmo é
com duas novas bombas. A primeira delas são
as fraudes no laboratório farmacêutico Bristol-Myers Squibb. A segunda são as revelações da participação do próprio Bush e de seu vice, Dick Cheney, em operações suspeitas, que foram investigadas pela SEC, a xerife do mercado americano.
O resultado é que o preço das ações caiu e a recuperação
da economia americana e mundial continuou ameaçada. Só
este ano, as bolsas de valores americanas perderam US$ 2,4 trilhões ? ou seja, parte da riqueza mundial evaporou.
Foi mais um golpe nos investidores. Desde o ano passado, está havendo um bombardeio incessante nas bolsas de valores. Começou com a desaceleração da economia americana, piorou com os ataques de 11 de setembro e se agravou com os escândalos de fraudes. Os golpes queimaram tanta riqueza que provocaram um fenômeno curioso e raro. Segundo um estudo do Boston Consulting, o número de ricos caiu. Em todo o mundo, dois milhões de pessoas caíram e ficaram abaixo da linha da riqueza ? que mede o patrimônio acima de US$ 250 mil. ?Poucos investidores passaram incólumes pelo desastre na economia?, diz o estudo, com base numa pesquisa em 61 bancos e consultorias na área de private banking.
De acordo com o estudo, o patrimônio dos ricos caiu 6% em um
ano. Parece pouco, mas, na prática, foram cortados US$ 2,9 trilhões de um bolo de US$ 40 trilhões. Essa perda equivale ao PIB somado de 97 países da América Latina, África, Oriente Médio e Caribe.
O grande vilão da história foram as bolsas de valores. Pela primeira vez desde a década de 70, o índice Dow Jones, que mede o desempenho da Bolsa de Nova York, caiu por dois anos consecutivos. Em 2000, o Dow Jones recuou 6,18% e, em 2001, 7,09%. A tendência se repetiu mundo afora. No Brasil, o Ibovespa caiu 10,72% em 2000 e 11,02% em 2001.
O desempenho das bolsas é chave para a recuperação da riqueza dos investidores e da fonte de recursos das empresas, ou seja, é um dos motores da economia mundial. ?A bolsa é uma espécie de mal necessário?, diz o consultor de investimentos Mário Dourado, que administra R$ 180 milhões de seis clientes. ?Se um cliente é muito conservador, seu patrimônio tende a encolher.? Foi o que aconteceu no ano passado. De acordo com o estudo do Boston, os clientes de private banking reduziram em 12% suas aplicações em bolsas e, em compensação, aumentaram em 5,2% os investimentos em títulos do governo dos EUA e em 4,6% os saques em dinheiro vivo.
Para reverter a descrença nas bolsas, Bush promete jogar duro. O problema é que as notícias ruins não param de aparecer.
Na semana passada, foi a vez de dois laboratórios farmacêuticos.
Na quinta-feira, as ações da Bristol-Myers caíram 4,4%, para seu valor mais baixo em seis anos, depois que veio a público que está sendo investigada. A SEC suspeita que a Bristol inflou suas vendas em US$ 1 bilhão. Antes do Bristol, o Merck já estava sendo investigado por engordar seu balanço em US$ 12 bilhões.
?No momento, a maior necessidade econômica dos EUA são padrões de ética mais elevados?, disse Bush. Logo, os investidores começaram a discutir a ética da própria equipe de Bush. Larry Thompson, indicado por Bush para ser o chefão da Swat financeira, foi sócio de um escritório de advocacia que defendeu a Lockheed num caso de suborno. ?Podemos estar colocando a raposa para tomar conta do galinheiro?, disse Sarah Teslik, porta-voz dos fundos de pensão.
Os escândalos não pararam por aí. A cada dia surgem novos detalhes sobre a participação do próprio Bush no escândalo da Harken Energy. Em 1989, a SEC obrigou a Harken a refazer os balanços por suspeita de fraude. Antes do anúncio da intervenção, Bush vendeu US$ 848 mil de suas ações na companhia. Na época, foi absolvido da suspeita de informação privilegiada. Já o vice-presidente Dick Cheney teria cometido fraudes na contabilidade da empresa que dirigiu, a Halliburton, da área de petróleo. O grupo anticorrupção Judicial Watch ameaça entrar com ação contra Cheney. Neste ritmo, tão cedo as bolsas não se recuperam, a economia não deslancha e milhares de pessoas vão cruzar a linha da riqueza ? para baixo.