Eram 10h30 da quarta-feira 22, quando o
ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura,
entrou apressado no gabinete do presidente Lula, no Palácio do Planalto. Rodrigues estava tenso e angustiado. ?Os agricultores já perderam R$ 30 bilhões nos últimos dois anos?, desabafou o ministro que, naquele momento, cogitava até deixar o cargo. ?Não dá para agüentar mais um ano de aperto?. Lula ficou espantado com o relato de Rodrigues e com a dimensão da crise no campo. Os dois examinaram algumas planilhas apontando quebra de safra em diversas regiões do País. Conversaram a sós durante mais de uma hora e foram interrompidos apenas por quinze minutos, com a presença do ministro da Fazenda ? Antônio Palocci entrou no gabinete, viu algumas propostas de Rodrigues e disse que examinaria com cuidado. Ao meio-dia, Lula decidiu encerrar a reunião, mas antes convocou um novo encontro, para a segunda-feira 27, com a presença de quatro ministros: Rodrigues e Palocci, além de Dilma Roussef, da Casa Civil, e Paulo Bernardo, do Planejamento. ?Isso vai ser resolvido?, prometeu o presidente. Ao assumir o compromisso, Lula segurou o ministro no cargo.

A questão é que Rodrigues hoje corre contra o tempo. Com a chegada da colheita de grãos, nos meses de março e abril, o ministro quer arrancar do Ministério da Fazenda, com urgência, uma verba de R$ 2 bilhões para a comercialização da safra ? tais recursos garantem ao agricultor a venda de seus produtos sem prejuízo. No ano passado, Rodrigues fez o mesmo alerta também em março e os recursos só saíram em setembro, seis meses depois da colheita, e ainda com corte orçamentário de 30%. Resultado: os agricultores venderam as mercadorias abaixo do preço de custo, endividaram-se e hoje estão com a corda no pescoço. ?Tudo no campo tem o seu tempo certo?, diz Rodrigues. A solução agora, propõe o ministro, é renegociar as dívidas e aprovar novas medidas de incentivo ao produtor. No que já vem sendo chamado de ?pacote de bondades rural?, estão previstas a redução de impostos de insumos, como adubos e fertilizantes, a criação de linhas de crédito e de subsídios para a soja, que seria utilizada nos programas oficiais de biodiesel (leia quadro abaixo). A questão é que também existem alguns empecilhos. O maior deles é o fato do Congresso ainda não ter votado o Orçamento da União de 2006 ? pelo menos, é essa a desculpa da Fazenda para não liberar os R$ 2 bilhões da comercialização da safra. ?Se não tiver orçamento, vai ter que ser por medida provisória?, contrapõe o ministro (leia sua entrevista abaixo).

Em pouco mais de três anos de governo, o ministro vem tendo de lidar com crises simultâneas. Rodrigues viu a renda do agricultor derreter com a queda drástica do dólar, enfrentou um surto de febre aftosa que ele mesmo previu com antecedência e ainda tem acompanhado com desgosto a conivência do governo com as recorrentes invasões de terra. Por isso, em várias ocasiões, ele foi pressionado pelos produtores a abandonar o barco. Muitos ruralistas avaliam que ele vem sendo usado. ?O governo se vale da nossa maior liderança para desmontar a agropecuária?, diz o deputado federal Ronaldo Caiado (PFL-GO). ?Rodrigues não pode colocar sua biografia a perder?, emenda Vilmar Rossoni, deputado estadual do Paraná e um dos maiores empresários do setor de compensados de madeira. ?No setor madeireiro já demitimos mais da metade dos nossos funcionários?.

Rodrigues, porém, acredita que, desta vez, a ficha caiu. Na reunião de quarta-feira, o ministro convenceu o presidente Lula de que não se trata de uma crise apenas do campo. Um dos números que ele mostrou foi o resultado apontado pela Confederação Nacional da Agricultura sobre o PIB do setor em 2005: queda de 4,7%. Sem essa retração, o Brasil teria crescido mais de 3,5% no ano passado ? e não a uma taxa haitiana de 2,4%. Além disso, as vendas no comércio varejista das cidades do centro-sul do País, que são dependentes da agricultura, caíram 20% neste início de ano. Para piorar, 13 municípios do Mato Grosso já decretaram situação de emergência em função da crise da soja ? o próprio Estado, que perdeu R$ 50 milhões mensais de arrecadação, deverá seguir no mesmo caminho. ?Não dá mais para adiar uma solução?, diz o ministro. Para Rodrigues, agora ou vai ou racha.

OS PLANOS DE RODRIGUES
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Zeca Caldeira

? R$ 2 bilhões para a comercialização da safra

? Menos impostos na compra de máquinas e insumos.

? Isenção tributária no lucro.

? Novas linhas de crédito do BNDES, com juros menores.

? Inclusão da soja no programa de subsídios do biodiesel.

? Alíquota menor na importação de defensivos.

?NÃO VAMOS TER DUAS CRISES SEGUIDAS?

DINHEIRO ? O sr. pediu demissão?
ROBERTO RODRIGUES ? Não. Só mostrei a Lula que a renda dos produtores caiu R$ 30 bilhões nos últimos dois anos. E também que os estados onde a produção industrial mais regrediu são Rio Grande do Sul e Paraná, os mais afetados pela crise do campo.

DINHEIRO ? Lula se convenceu?
RODRIGUES ? Boa parte da crise decorre do atraso que houve no ano passado na liberação dos recursos para comercialização da safra. E o presidente convocou uma reunião de emergência e me garantiu que não teremos dois anos seguidos de crise.

DINHEIRO ? Ainda assim, os produtores querem que o sr. deixe o governo. Qual é o seu limite?
RODRIGUES ? Meu limite é a esperança. E nesta próxima semana serão aprovadas uma série de medidas de apoio ao setor agropecuário. Estou convencido disso.