A Rússia admitiu, nesta terça-feira (16), ter destruído um de seus satélites durante o teste de um míssil espacial, mas rejeitou ter posto em perigo a tripulação da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), classificando de “hipócrita” a acusação dos Estados Unidos.

“O Ministério da Defesa executou com sucesso um teste, o que resultou na destruição do aparelho espacial ‘Tselina-D’, que estava em órbita desde 1982”, afirmou o Exército em um comunicado.

O lançamento deste míssil havia sido antecipado na véspera pelos Estados Unidos, que acusaram Moscou de provocar uma nuvem de destroços ameaçadores para os astronautas da ISS.

Segundo Washington, os sete astronautas a bordo da ISS tiveram de se refugiar temporariamente em seus naves para se prepararem para uma eventual saída de emergência.

O ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, classificou como “hipócritas” as acusações dos Estados Unidos. Até então, os EUA eram os únicos, junto com China e Índia, a terem lançado mísseis espaciais.

“Declarar que a Federação Russa criou riscos para a exploração com fins civis do espaço é hipócrita, para dizer o mínimo. Não há qualquer fato nesse sentido”, disse Lavrov.

O chanceler russo disse ainda que os Estados Unidos “ignoraram as propostas de Rússia e China para um acordo internacional que impeça uma corrida armamentista no espaço”. Segundo ele, em 2020, os EUA “criaram um comando espacial e adotaram uma estratégia”, que tem, entre seus objetivos, “instaurar um domínio militar no cosmos”.

Ontem, o diretor da Agência Espacial Americana (Nasa), Bill Nelson, disse estar “indignado”, e o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, destacou que a nuvem de destroços ameaçaria as atividades espaciais “durante décadas”.

Nesta terça, a agência espacial russa, a Roscosmos, rebateu a acusação, garantindo que sua “prioridade máxima” é a “segurança da tripulação” da ISS.

“Apenas os esforços conjuntos de todas as potências espaciais poderão garantir uma coexistência o mais segura possível e as operações no âmbito espacial”, afirmou a Roscosmos em um comunicado, sem responder diretamente às acusações americanas.

Segundo a agência oficial de notícias russa TASS, autoridades da NASA e o diretor da Roscosmos, Dmitri Rogozin, terão uma conversa ainda hoje.

A discórdia põe sob os holofotes o risco de uma militarização do espaço. Este é um dos poucos campos, em que Washington e Moscou ainda mantêm uma cooperação relativamente estável, para além de suas muitas divergências.

Até agora, Moscou havia levantado sua voz contra qualquer tentativa de militarizar o espaço. Ainda assim, disse à AFP o especialista militar russo Pavel Felgenhauer, Moscou nunca escondeu que têm sistemas capazes de alcançar o espaço, decolando da Terra. Entre eles, estão os sistemas de defesa S-500 e S-550, capazes, de acordo com o Exército, de destruir satélites.

O lançamento de segunda-feira pode ter gerado uma enorme quantidade de destroços. Estes fragmentos representariam um risco para milhares de outros satélites em órbita, dos quais dependem muitas atividades, como comunicações, ou geolocalização.